Falar é fácil, fazer é que são elas! – Opinião de Catarina Furtado
Publicado em 13 de Novembro, 2017

Quando se fala em Ambiente, fala-se num autêntico mundo de matérias complexas, desde resíduos, ordenamento do território, recursos hídricos, florestas, conservação da natureza e proteção da biodiversidade, etc..

Grosso modo as pessoas pensam nas questões ambientais apenas como aquelas ligadas à natureza e isso é compreensível, tem a ver com o contexto em que vivem. Somos uma Região com um património natural de beleza e valor reconhecidos. Prova disso são as 123 áreas classificadas como Protegidas existentes na Região.

Algumas dessas Áreas possuem “singularidades naturais ou culturais de valor excecional”, o mesmo será dizer que são únicas. Por serem únicas é necessário garantir a sua monitorização, conservação e salvaguarda. Não quer isto dizer que não possamos usufruir delas, nada disso, é preciso é compatibilizar a sua utilização com a sua preservação e isso só pode ser feito através de uma correta e eficaz gestão.

Nos últimos tempos a tarefa de gestão das nossas áreas ambientalmente sensíveis complicou-se, sobretudo com o aumento do Turismo nos Açores, aumento esse que está precisamente ligado à nossa vocação como destino de natureza. Somos um destino com paisagens deslumbrantes e com especificidades naturais apelativas, daí grande parte da nossa atratividade.

Como era expectável, nos últimos anos, sobretudo com o aumento da pressão turística, algumas das principais ameaças à conservação da natureza e proteção da biodiversidade acentuaram-se. Era isso expectável, como também era expetável que quem está incumbido da gestão das nossas Áreas Protegidas se tivesse preparado para, não só receber bem quem nos visita, como também garantir a salvaguarda do nosso património natural.

Não é a tarde e a más horas que se deve vir reconhecer que afinal existe necessidade de proceder à “avaliação da capacidade de carga e da pressão do uso e fruição das áreas sensíveis incluídas nos Parques Naturais de Ilha”, ou que afinal há mais trabalho para fazer e que não se tinha pensado sequer nisso.

Era obrigação do executivo regional ter feito o trabalho de casa, mas não o fez. Entretanto e por falta de visão e de estratégia governativa em matéria de ambiente e de turismo, foram recorrentes, ao longo deste verão, situações em determinadas Áreas Protegidas que denunciaram um evidente aumento da pressão sobre os nossos recursos naturais e situações de delapidação descontroladas, a par de uma óbvia falta de capacidade de gestão e administração das mesmas (sem quaisquer consequências, diga-se de passagem).

A avaliação da capacidade de carga dos locais frequentados pelos turistas, apesar de ter sido anunciada há bastante tempo, tarda em aparecer. Se calhar esperam por outro verão catastrófico. O Executivo parece não se importar muito com as más experiências de alguns turistas, porventura interessar-lhes-á muito mais os números animadores do turismo, como o número de visitantes, o número de dormidas ou o aumento das receitas associadas ao turismo, que deram inclusive direito a um ato laudatório do Grupo Parlamentar do Partido Socialista dos Açores ao Governo Regional, disfarçado de interpelação.

Também já se assumiu a necessidade de uma atuação adicional ao nível de um melhor trabalho de ordenamento do território e mesmo ao nível da infraestruturação de algumas áreas que estão a ser utilizadas de forma massificada – menos mal. Esperemos que não se fique pelo anúncio, se bem que a acontecer tal não seria de todo inédito. Essa especialidade de falar e não fazer tem sido desenvolvida com algum primor pelo nosso Executivo.

Bem pode a secretária Regional da Energia, Ambiente e Turismo vir dizer que pretendem “assegurar mecanismos de requalificação e preservação dos principais espaços com vocação para o recreio e lazer”. Bem pode, também, dizer que é intenção do Governo “gerir a procura nas áreas ambientalmente sensíveis” como sejam, entre outras, as Áreas Protegidas, “com o propósito de assegurar a sua preservação ambiental e paisagística”. Pode, igualmente, dizer que existe um trabalho conjunto entre as várias secretarias regionais, para uma concertação estratégica de “atuação nos locais onde já tenha sido verificado maior pressão antrópica por via da atividade turística” e que exijam uma efetiva intervenção a curto prazo, seja no sentido de requalificá-los, dotá-los de valências adicionais ou de infraestruturas de que necessitem. Pode dizer tudo isto e muito mais, porque é fácil falar, mas a verdade é que toda esta “ladainha” já cansa e soa apenas a um “vamos fazer algo, qualquer coisa, mas não sabemos bem o quê, quando, ou onde”…

Não posso deixar de anotar a considerável semelhança desta cantilena com um sketche conhecido do grupo de quatro humoristas portugueses “Gato Fedorento”, intitulado “O homem a quem parece que aconteceu não sei o quê”, em que o Ricardo Araújo Pereira às páginas tantas diz “… falam, falam, falam, falam, falam, falam e eu não os vejo a fazer nada”…

De facto, nesta e noutras matérias, tem os nossos governantes falado muito, mas fazer que é bom, isso nada…