O pior cego é o que não quer ver – Opinião de Luís Garcia
Publicado em 19 de Novembro, 2015

1. Este adágio popular aplica-se, no meu entendimento, ao que se está a passar no Faial. Passam-se coisas estranhas e há muitos que não as querem ver nem as suas origens.

Há um conjunto de constrangimentos que estão a obstaculizar o nosso desenvolvimento. Refiro-me a constrangimentos provocados por um retrocesso inexplicável nas acessibilidades aéreas (que vão muito para além da reposição de voos ao fim-de-semana), a investimentos que o Governo Regional faz em outros lados e aqui não faz (Termas do Varadouro), a investimentos que são sucessivamente adiados (ampliação da pista do aeroporto, estradas interiores), a outros que são pura e simplesmente cancelados (2ª fase da variante e Estádio Mário Lino) apesar de prometidos há anos e até a alterações legislativas que permitem criar plataformas logísticas no domínio dos transportes marítimos de mercadorias. Estou profundamente convencido que tudo isto não acontece por mero acaso.

Estou convencido, e é preciso dizê-lo e assumi-lo, que existem interesses muito bem colocados nomeadamente, à mesa do orçamento regional, que procuram dificultar o desenvolvimento desta ilha. Que existam alguns interesses empresariais e geográficos a quem não lhes interessa o desenvolvimento do Faial eu não aceito mas até posso compreender. Agora que o Governo Regional, ao seu mais alto nível, seja permeável e até tenha elementos que se sentam no Conselho de Governo que sejam os principais fomentadores e executores dessa estratégia, isso é absolutamente inaceitável. É deplorável que, por exemplo, se faça depender um apoio a um determinado projeto da sua localização geográfica. É incompreensível que o Governo Regional tenha no seu seio quem seja capaz de atuar desta forma tão maquiavélica e deturpadora da coesão e do desenvolvimento regional.

Só assim, para mim, é entendível muitos dos referidos constrangimentos colocados ao Faial e em alguns casos a esta zona do arquipélago. Sei que alguns considerarão que estou a diabolizar. Mas a esses digo que “o pior cego é o que não quer ver” e que não perceber essas estratégias é continuar a meter a cabeça na areia. Não reconhecer isso, é deixar que esses ditos interesses continuem, sem oposição, esse caminho de desvalorização e secundarização do Faial. E temos de perceber igualmente que essa luta vai muito para além dos partidos políticos.

2. Mas os culpados por todos esses bloqueios ao nosso desenvolvimento não são só externos. Falta-nos muito trabalho de casa. Falta-nos, desde logo, e há muitos anos, uma Câmara capaz de liderar o nosso desenvolvimento. Uma Câmara capaz de definir, em articulação e envolvendo todos, um plano de desenvolvimento estratégico para esta ilha, identificando investimentos e objetivos que vão muito para além das áreas em que exclusivamente tem competências.

Defendo, há muito, esta orientação mas a verdade é que por incapacidade ou por omissão, a Câmara não tem conseguido ou querido exercer esse papel, que até numa ilha de um só concelho estaria mais facilitado. Estamos a pagar por essa lacuna. E enquanto tivermos uma Câmara mais preocupada em ganhar as eleições seguintes do que em desenvolver de forma sustentada o Concelho não conseguiremos avançar.

3. Mas para além de não exercer esse papel a Câmara Municipal, aparentemente, nem defende os interesses do Faial nas instituições e associações de que faz parte. Vejamos alguns exemplos.

Temos assistido a alguns desenvolvimentos em termos de acessibilidades aéreas no Triângulo (pelo mesmo para um vértice desse Triângulo). Questionado numa reunião de Câmara sobre esses desenvolvimentos, o Presidente da Câmara e também da Associação de Municípios do Triângulo (AMT) nada sabia sobre isso. Mas a AMT não tem como objetivo essencial promover o Triângulo sendo que para tal são decisivas as acessibilidades? Será que os outros membros da AMT também nada sabiam? Ou alguém foi “comido”?!

4. Em 2009 foi criada a Associação “Tryangle” com o objetivo primordial de promover e desenvolver o Triângulo. Desde o início que a “Adeliaçor” fez parte daquela Associação e pelos seus estatutos fazia mesmo parte da sua direção. Ora desde aquela data que a “Adeliaçor” é presidida pelo representante da Câmara da Horta. Desde 2009 passaram pela sua presidência os Vice-presidentes da Câmara: Orlando Rosa, José Leonardo e Luís Botelho. Estes dois questionados em reunião de Câmara sobre os resultados da ação da “Tryangle” nada sabiam! Nem sabiam se esta associação ainda existia! Ficámos foi a saber que a Adeliaçor é que presidia à Assembleia Geral e que depois da “casa roubada” havia convocado uma reunião.

O que andaram os representantes da Câmara da Horta a fazer na Associação “Tryangle” desde 2009? Quais os resultados da ação da “Tyangle”? Eu quero saber: o que fez, que dinheiro gastou e que resultados obteve. Fica o desafio.

Nesta Terra da coisa rara passam-se coisas estranhas. O pior cego é o que não quer ver. Acordem Faialenses!