À espera de uma cirurgia – Opinião de Carlos Ferreira

1. Listas de espera para cirurgia
Há 12.062 pessoas à espera de uma cirurgia na Região Autónoma dos Açores.

Este é o número que consta da informação dada pelo próprio governo e que se reporta a 31 de dezembro de 2019, em resposta a um requerimento parlamentar do PSD/Açores.

Este valor traduz um dos principais indicadores sobre o estado da saúde no arquipélago.

Mas representa muito mais do que isso. Representa as doze mil e sessenta e duas pessoas que, comprovadamente, precisam de uma intervenção cirúrgica e estão à espera de serem chamadas para a fazer.

Entre estes 12.062 utentes, existem 3.287 pessoas que aguardam há mais de 9 meses, com destaque para as especialidades de oftalmologia (823 utentes), ortopedia (608 utentes), cirurgia geral (580 utentes) e otorrinolaringologia (415 utentes).

A informação acima descrita é, por si só, suficientemente grave para se avaliar negativamente esta área da saúde da Região.

2. É possível estar mais de um ano e meio à espera?
Sim, há 4.416 pacientes que aguardam há mais de 18 meses por uma intervenção cirúrgica.

A especialidade em que há mais utentes a aguardar pela cirurgia há mais de 18 meses é a ortopedia, que totaliza 991 inscritos há mais de um ano e meio.

A otorrinolaringologia tem 714 utentes nas mesmas circunstâncias, a cirurgia vascular tem 652, e há 622 pessoas à espera de uma cirurgia oftalmológica

Para percebermos a dimensão do problema, isto significa que açorianos em número superior a toda a população da ilha Graciosa, ou das Flores, ou dez vezes a população do Corvo, esperam, ou melhor, desesperam, há mais de um ano e meio, pela cirurgia que lhes foi indicada e que precisam de fazer.

3. O medo de falar
Quem não conhece pessoas nesta situação?

Conheço várias. Penso, aliás, que todos conhecemos. Lamentam-se em surdina, mas não reclamam formalmente, porque têm medo de o fazer. Nem permitem que o seu caso seja citado de forma direta, porque receiam as consequências.

“Depois sou ainda mais prejudicada”, respondeu-me há uns dias uma nossa conterrânea que aguarda uma cirurgia à anca.

E assim vai a Região, 46 anos após o 25 de Abril, com açorianos que não falam sobre os seus direitos por ainda terem medo de falar. Ou talvez seja mais rigoroso dizer, porque voltaram a ter medo de falar.

Tudo isto é muito grave e é preciso pôr-lhe um fim.

Sem meias palavras: é preciso acabar com o medo que se instalou na sociedade açoriana. Não há desculpas, nem discursos redondos. É preciso acabar com isto!

4. Oito anos à espera
Voltando aos dados do governo, verificamos que o paciente inscrito há mais tempo para cirurgia aguarda há… 8 anos!!!

Será engano? Não. Leu bem. Segundo a resposta do governo aos deputados do PSD/Açores, há uma pessoa que aguarda uma cirurgia desde o dia 3 de janeiro de 2012.

Este recorde negativo ocorre no Hospital do Divino Espírito Santo, em Ponta Delgada; no Hospital do Santo Espírito, na lha Terceira, a situação não é muito melhor.

O utente que espera há mais tempo está inscrito desde o dia 4 de junho de 2013, mas o procedimento está condicionado por razões de saúde do próprio paciente; e no caso do Hospital da Horta, existe uma pessoa inscrita desde o dia 28 de maio de 2015, isto é, há 4 anos, que aguarda pela intervenção de “reparação de luxação recorrente do ombro”.

5. Nota negativa
Não está tudo mal, naturalmente. Há muitos aspetos em que foram dados passos positivos, mas numa região em que mais de quatro mil e quatrocentas pessoas aguardam há mais de dezoito meses por uma cirurgia, a avaliação tem que ser francamente negativa.

A este quadro, junta-se a lista de espera para consultas, a dificuldade que permanece no acesso a consultas de especialidade nas lhas sem hospital, ou o atraso inexplicável que se verificou no pagamento das diárias dos doentes deslocados, muitos deles com parcos recursos, inviabilizando deslocações subsequentes por não terem condições para suportar de forma antecipada os custos dessas mesmas deslocações.

Isto nunca devia acontecer, ninguém deveria ficar impedido de ter os cuidados médicos de que precisa por falta de cumprimento, por parte do governo, daquelas que são as suas obrigações.

A saúde da Região não está boa, por muitos discursos que o governo faça ou por muito que esprema os números – que, repito, representam pessoas – até corresponderem aos seus desejos.