A SATA é o espelho da governação dos Açores – Opinião de Carlos Ferreira

A SATA tem tudo do melhor – pilotos, funcionários e uma população que dela precisa – e duas coisas muito más: a Tutela e a Administração.

Mas já lá vamos.

A abrir o ano, tinha planeado escrever sobre as metas de 2020 e transmitir uma mensagem de otimismo. Sim, porque precisamos todos de uma mensagem positiva, e a cada problema que encontramos, precisamos de ver também a solução para o ultrapassar.

Mas o caos que se instalou nos transportes aéreos por altura do Natal e a situação dramática que viveram centenas de famílias, sem saberem se os seus filhos, pais ou outros familiares chegariam a tempo de passar a noite de Natal, fazem do assunto um tema obrigatório.

E é um tema obrigatório porque o que aconteceu não é, verdadeiramente, uma surpresa. É o resultado do rumo que foi dado à SATA, e à Região, na última década.

Uma década em que a qualidade do serviço prestado decaiu aos olhos de toda a gente; em que a situação financeira da empresa passou de 33 milhões de euros positivos para 150 milhões negativos em 2018; e em que as necessidades de algumas ilhas foram relegadas para segundo plano, sendo o Faial um exemplo dessa opção negativa.

A nível interno, a gestão de recursos humanos criou também entropias que acabaram por degenerar em conflitos laborais graves, de que os principais prejudicados acabam invariavelmente por ser aqueles que precisam da companhia para chegar a algum lado.

Volto, por isso, à frase inicial: a Sata tem tudo do melhor, e dois ingredientes absolutamente destrutivos: a Tutela – o governo regional do Partido Socialista – e a Administração.

E quando digo que tem tudo do melhor, refiro-me a pilotos, funcionários e uma população que precisa da companhia aérea e que compreendeu as dificuldades da empresa até ao limite.

Vi por estes dias funcionários competentes, quase em desespero, a tentarem por todos os meios encontrar uma solução para cada passageiro que se lhes apresentava pela frente. Outros estavam nas cargas ou demais atividades “invisíveis” a procurar cumprir o seu papel para que tudo corresse bem. E tivemos também conhecimento de atitudes abnegadas de pilotos e respetivas tripulações, que fizeram muito mais do que o mero cumprimento do contrato de trabalho para que os passageiros pudessem chegar a casa. Há exceções? Claro que as há, como na polícia, na política e em todas as atividades.

O que não vi foi o governo.

O governo é o único dono da SATA. Nunca devia ter deixado a situação chegar ao ponto a que chegou nas vésperas do Natal, e muito menos se aceita que tenha assobiado para o lado como se nada tivesse a ver com o assunto, enquanto centenas de famílias açorianas viviam momentos de angústia. Independentemente das reivindicações da greve serem justas ou não, sobretudo numa altura em que a empresa se encontrava sem presidente, exigia-se ao governo que desse a cara, que agisse, que dirigisse uma palavra aos técnicos de manutenção com o compromisso de realizar negociações no início de janeiro.

O governo optou por se esconder, quando o momento exigia um governo que assumisse as suas responsabilidades e o seu dever.

Quanto ao futuro da SATA, discordo frontalmente da visão daqueles que dizem que “mais vale fechar”. Nos Açores, a nossa companhia aérea é condição de mobilidade, é instrumento de coesão e é ainda veículo de sentimento de pertença do “ser açoriano”.

Mais, a SATA é importante para todos os açorianos, mas tem uma dimensão única nas sete ilhas que não têm companhia alternativa para voar. E nestas, seis não têm hospital, e a ilha do Faial, apesar de ter hospital, não dispõe de muitas especialidades e equipamentos para realizar exames e meios complementares de diagnóstico. Sabendo-se que detetar um problema de saúde atempadamente, é cada vez mais o fator decisivo para o debelar, percebe-se o caráter essencial da companhia aérea também ao nível da saúde. Em sete ilhas dos Açores, a Sata é verdadeiramente condição de vida ou de morte.

Por isso, se não está contente com a companhia aérea, compreenda que não é a SATA que tem que ser extinta, é a governação que tem que ser mudada.