Competir com os grandes e baratos – Opinião de António Almeida

A 28 de junho de 2019 a União Europeia e o Mercosul (Mercado Comum do Sul – Argentina, Brasil, Uruguai e Paraguai) firmaram um acordo comercial estratégico para um universo de 780 milhões de pessoas (incluindo os 500 milhões de habitantes da UE) criando assim uma das maiores áreas de comércio livre do mundo.

Na verdade, os sul americanos exportam produtos agropecuários e os europeus produtos industriais com níveis tecnológicos e também de competitividade muito distintos, o que vem obrigando os líderes políticos a prolongar, ao longo de 20 anos, a finalização do acordo.

Portugal ganha acesso a um mercado de 266 milhões de consumidores, com produtos que passam a taxas zero de imediato e outros ao longo de oito anos, num ambiente de transação livre, em ambos os sentidos.

Na União Europeia, a França, a Bélgica, a Irlanda e a Polónia foram os países que mais recearam a concorrência da agropecuária dos quatro países do Mercosul.

Contudo, de ambos os lados, os elogios ao sucesso do acordo celebrado não demoraram, intitulado como um dos mais importantes de todos os tempos.

No caso agrícola há grandes diferenças na dimensão das explorações agrícolas, nos métodos de produção, nas obrigações fiscais e sociais, bem como nos requisitos ambientais.

Torna-se relevante o custo de produção, pelo acesso a fatores de produção mais baratos e a dimensão das empresas agrícolas, que as torna competitivas à escala mundial.

Portugal e os Açores, integradas na Política Agrícola Comum, incorporam as obrigações legais, requisitos técnicos, sanitários e ambientais com impacto na reduzida dimensão média das explorações.

Na balança comercial envolvida parece que os políticos olham para o benefício global do acordo e não nas condições globais em termos agrícolas.

O acordo protege as “indicações geográficas de origem” o que à partida é considerado um aspeto favorável a Portugal, face aos inúmeros produtos certificados portugueses.

No caso dos Açores os produtos verdadeiramente certificados são em número muito reduzido, principalmente no caso dos lácteos e da carne de bovino, o que deixa a região numa posição frágil com o embate das importações dos países do Mercosul, principalmente se o fator preço for determinante.

Não deixará de ser interessante, pelo menos em teoria, a oportunidade dos Açores em acederem a outros mercados de grande dimensão, mas com um desconhecimento sobre qualquer vantagem na aquisição de produtos dos Açores, apenas porque se intitulam de “Marca Açores”.

Em ambos os segmentos, lacticínios e carne, onde a concorrência será feroz nos atuais mercados de destino dos produtos açorianos, cada vez se torna mais relevante o fator diferenciação, que distinga por características muito específicas o que os consumidores possam valorizar.

Saúde e prazer em consumir produtos agroalimentares vão estar, em permanência, na mente dos consumidores e a condicionar as suas escolhas.

Em meu humilde entender, enquanto se assiste ao debate interessante da produção de café e inhame dos Açores e de mais uns quantos produtos que passam a integrar a Marca Açores, estamos a assobiar para o ar com o que se está a passar com a “desvalorização” do leite e com o “tá tudo bem” com a “carne” (relembrando que a exportação de bovinos vivos não é carne dos Açores) e que a Carne IGP nem se tem traduzido numa mais valia no mercado da carne regional, com diferenças de preço irrelevantes.