Agricultor. Profissão sem férias – Opinião de António Almeida

Estamos em tempo de férias. Quase toda a gente procura os meses de calor para usufruir de uns quantos dias de bem-estar, preferencialmente, e quando possível, fazendo uma viagem, mudando de ares para recuperar forças para um novo recomeço de trabalho. Por alguma razão as férias existem e são um direito. Então porque razão os agricultores, de forma especial os produtores de leite não têm férias?

Está a sociedade sensível a esta realidade muitas vezes ignorada. Estarão os responsáveis dos hipermercados conscientes quando promovem junto dos seus fornecedores a compra do leite mais barato, os descontos, as promoções e as campanhas sobre um produto que toda a gente conhece, para ser o chamariz para as suas lojas, junto dos consumidores que pagam a água ao mesmo preço do leite e um café a 70 cêntimos.

E porque razão este fenómeno é bem mais visível em Portugal do que nos restantes países da Europa onde um litro de leite UHT se vende a 80 cêntimos.

Em S. Miguel disputa-se entre lojas próximas preços de leite para atrair consumidores. Entre S. Miguel e Terceira disputa-se o preço no leite UHT (sendo o produto mais vendido e por isso relevante) no mesmo mercado, com as indústrias de lacticínios fornecedoras a disputarem esses espaços, fazendo recair no produtor de leite o resultado dessa disputa.

Será que estão todos conscientes do mau contributo que dão ao único interveniente que nada decide junto do mercado a não ser submeter-se à decisão de terceiros sem ter alternativa concorrencial, como é o caso do produtor de leite que nem consegue mudar de fábrica.

Será que aqueles sabidos que proíbem os monopólios e não aceitam a falta de concorrência estão a ver em que condições ficam os produtores de leite amarrados aos interesses do cartel do leite e da grande distribuição?

Não estarão todos a “comer” indiretamente nos tais subsídios que tanto se falam e que foram instituídos para melhorar o rendimento dos produtores.

Não estarão todos a falar de produção biológica, na utilização de menos adubos e menos rações, de menos vacas por hectare, de menos estábulos e de mais sacrifícios para o lavrador que ordenha as vacas a céu aberto com uma máquina de ordenha móvel e sem condições de trabalho e, ao mesmo tempo, a contribuir para a produção intensiva e em grande escala.

Não estarão a tratar sem dignidade e sem rendimento os lavradores que não têm horário de trabalho (ou têm apenas no papel para cumprir as leis do trabalho) e não têm férias com as suas famílias como todos os outros que têm direitos?

Estarão os Açores, o seu Governo e as diversas instituições do setor a contribuir para valorizar a imagem do agricultor, quando se anunciam milhões todos os dias e a restante sociedade não sabe para onde vão, até mesmo os que deles beneficiam indiretamente?

Não estaremos a financiar com dinheiros públicos e através dos programas chamados de apoio à Agricultura, as infraestruturas e as empresas que servem os interesses de outros setores, sem que haja compreensão e o retorno para os produtores desses financiamentos públicos.

Será que já se interrogaram por que razão há cada vez menos agricultores e cada vez menos jovens a quererem ser produtores de leite apesar do anúncio de tantos subsídios?

Para reflexão, em tempo de férias!