Flores. Homem e Natureza têm que se entender – Opinião de António Almeida

Ser agricultor nos Açores não é um estatuto igual em todas as ilhas da região. Desde logo porque a história de cada ilha e das suas gentes não é idêntica e porque o território é diferente e moldou as pessoas de forma distinta. E bem bom que assim é, no quadro da diversidade que nos enriquece e valoriza.

Na perspetiva agrícola e do ordenamento do território existe um instrumento de trabalho que não tem sido muito considerado ao longo dos anos e eu percebo porquê. Trata-se da carta de uso e ocupação dos solos que resulta da avaliação, a todo o nível, das características dos solos e terrenos, que determina o seu potencial agronómico, e o fim a que deve ser destinado o seu uso.

Naturalmente que os critérios da sua utilização condicionam a atividade económica e o valor patrimonial e comercial dos prédios rústicos e/ou urbanos ou urbanizáveis, razão pela qual são objeto de discussão e interesse. Por outro lado, com os Açores sem alternativas de emprego, ao longo dos anos, o uso agrícola da terra foi a solução encontrada para criar valor e emprego, em períodos de enorme sacrifício em resultado da falta de mecanização que superasse a orografia das ilhas.

Sempre que o Homem forçou a atividade agrícola, contra a condição visível do território, o sucesso desse investimento é dificultado.

No entanto a atividade agrícola enquadrada na paisagem pode ser uma mais valia, não na perspetiva da quantidade produzida, mas sim no tipo de produto, alimentar ou outro, que se coloque no mercado que lhe reconheça o valor.

Em visita à ilha das Flores, uma ilha encantada pela paisagem e procurada por turistas muito especiais, pode facilmente reconhecer-se as vantagens, mas também os erros sucessivos nas políticas agrícolas, quase que, “obrigando” a produzir o que os agricultores não queriam.

Ficamos, assim, hoje, com uma “carga de trabalhos” resultante dos euros investidos na produção de leite, na construção de fábricas e queijarias, mas também aplicando recursos públicos anuais para a sua manutenção, sem a garantia da produção adequada.

Se a dificuldade na produção de leite continuar, os produtores vão dedicar-se mais à produção de bovinos de carne, o que sabem e gostam de fazer, exportando animais vivos e jovens, que nunca serão carne dos Açores, pois o acabamento, o abate e a desmancha, muitas vezes são efetuados fora da região, e sendo feitos na região, e nas condições atuais, não serão “Carne das Flores”.

Para resolver estes problemas, “venha o diabo e escolha” pois nunca foram tratados de forma transparente com os produtores, ou com os dirigentes, e na presença dos agricultores, mostrando “do mal o menos” e justificando a melhoria do rendimento dos produtores das Flores, com as decisões mais adequadas.

Com o turismo e o ambiente à mistura, o cenário mudou, mas a reestruturação exige, novamente, recursos financeiros da União Europeia para essa mudança: a agricultura presta um serviço e não produz apenas alimentos.

E é preciso criar outras oportunidades no mundo rural para que os jovens construam o seu emprego e ganhem mais do que com a sua dependência ocupacional ao Governo ou à Câmara. Se for para mudar de patrão ou aumentar o risco sem melhorar, a sério, o seu rendimento de forma sustentada, nenhum jovem fará essa opção, um problema acrescido na fragilidade económica de algumas ilhas.