Corvo natural e agro rural – Opinião de António Almeida

Visitei na passada semana a ilha do Corvo. Não fiquei indiferente à sua singularidade. Senti-me mais ilhéu que nunca, apesar de já ter conhecido o Corvo das ruas terreiras, da falta de eletricidade, do motocultivador com o atrelado, a única viatura, e que nos levava rindo, mas assustados, até ao Caldeirão, a lagoa que marca a paisagem turística da ilha.

Habituados às visitas da manhã para a tarde, admiravam-se alguns porque ficava duas noites.

Porque precisava de ouvir da boca dos Corvinos a sua condição de açorianos super ultraperiféricos, de forma especial aos agricultores que encontrava e que, de uma forma geral, os menos jovens tinham tido essa ligação e sabiam contar as histórias.

Alguns, amigos do tempo das feiras agrícolas, falavam como se nos encontrássemos todos os dias.

No fundo, os Corvinos querem dos Açores aquilo que os Açores reclamam de Bruxelas, naturalmente com as devidas adaptações.

Também não fiquei indiferente ao número de carros, das casas novas de traça moderna e das vias em cimento. Percebi que faziam parte da evolução dos habitantes da ilha, que vivem lá todos os dias.

Em alguns casos a evolução descaraterizou a tipicidade da Vila, mas nem tudo está perdido se todos forem envolvidos num projeto de desenvolvimento económico e territorial que mantenha as condições de qualidade de vida, requalificando o património edificado, paisagístico e agro rural do Corvo.

Na produção agrícola a única marca é a do Queijo do Corvo, já que no caso da carne, só poderá ter uma marca a que resulte de animais abatidos e vendidos na ilha, para os locais e turistas que sempre perguntam se o que está na mesa é da ilha. Resta algum artesanato, com as fechaduras de madeira em destaque.

O maior desafio dos habitantes da ilha, todos empregados na Câmara Municipal ou no Governo ou em pequenos negócios, é como entusiasmamos os mais jovens a desenvolver uma segunda atividade, lucrativa em alguns meses do ano e com estima pelo Corvo.

A alternativa, que não é a melhor, é apoiar quem venha de fora instalar-se sazonalmente na ilha.

A criação de bovinos de carne está lá, com todas as raças à mistura, segura pelos apoios da União Europeia.

A produção de leite, “presa por um fio”, que se chama Rogério, um jovem agricultor que ordenha vacas à mão sempre que a máquina de ordenha não alcança os pastos, é o único que entrega leite na queijaria da Lacticorvo “pendurada” pelos apoios do município e do governo, à espera que um dia uma das coisas aconteça: o leite não apareça ou o subsídio.

Não percebo porque existe a vontade pública de investir, mas sem uma estratégia de longo prazo, que resulta da falta de diálogo e de alguém que, localmente acompanhe o interesse comum. Afinal, num pequeno encontro de ativos agrícolas, fez-se o exercício das hipóteses e das vontades.

A economia do Corvo devia ser “património regional”, pois trata-se de manter vivo o “jardim da casa” que valoriza a própria casa!

Há pastos, trilhos e atalhos, erva e mato, vacas e lavradores, palheiros, turistas e admiradores. Mas parece não haver um rumo que ajude todos a olhar para um desenvolvimento sustentável, diferente de uma cópia de qualquer outro lugar do mundo.

A ilha não tem desempregados. Só precisa de uma nova esperança que atribua outro valor aos que decidiram lá viver e que podem tomar conta, da ilha encantada, outrora de corsários e piratas.