A distância entre o discurso e a realidade – Opinião de Luís Garcia

1. No período legislativo deste mês, o PS agendou na Assembleia Regional um debate de urgência sobre “a estratégia integrada de desenvolvimento tecnológico na economia açoriana”.

Não tenho dúvidas que a valorização da economia açoriana em componentes como a investigação científica, o desenvolvimento tecnológico e a inovação, constitui para os Açores uma aposta estratégica que acredito ser capaz de promover o nosso crescimento e a criação de emprego.

Tal é possível e desejável em várias áreas, designadamente, nas relacionadas com o mar, agricultura, ambiente e até com o espaço.

No referido debate no discurso laudatório do PS ao Governo muito se falou de investimentos em parques tecnológicos e de outros investimentos tecnológicos em que a Região está envolvida.

Porém, é bom lembrar que essa suposta criação de condições para atrair e captar empresas e investimentos tecnológicos não tem ocorrido de forma equitativa em todas as ilhas.

Por exemplo, no Faial em alguns domínios a distância entre o discurso socialista e a realidade é enorme. Avivemos algumas memórias.

2. Em 2012, no seu manifesto eleitoral do Faial, o PS e Vasco Cordeiro prometeram “promover a instalação do Parque Empresarial para empresas ligadas ao aproveitamento dos recursos do mar”.

O objetivo era corresponder a uma reivindicação desta ilha no sentido de criar condições para captar e fixar empresas ligadas aos diversos domínios da economia do mar e reforçar a vocação marítima da Horta e dos Açores.

Já em 2010, na inauguração das instalações do DOP, Carlos César no seu discurso deixou a promessa de criar, em cooperação com aquele Departamento, um “parque tecnológico ligado às ciências do mar”.

Estamos em 2019 e ainda aguardamos o cumprimento desta promessa!

3. Em agosto de 2014, Vasco Cordeiro no Parque Tecnológico de São Miguel afirmou que “esta aposta na valorização da componente científica e tecnológica da economia dos Açores não se limita a este investimento em São Miguel e inclui também o Parque Tecnológico da Ilha Terceira (..) e o Parque Empresarial da Ilha do Faial, mais vocacionado para as ciências do mar”.

Em Outubro do mesmo ano, o então Secretário Regional do Mar, Ciência e Tecnologia prometia que os Açores queriam “atrair empresas de biotecnologia marinha para exploração dos recursos do mar profundo” e acrescentava, numa nota do GaCS, que as empresas deste setor “que se venham a basear nos Açores poderão beneficiar de escritórios e laboratórios com rendas acessíveis na ilha do Faial, onde será instalado um Parque Empresarial para empresas ligadas ao aproveitamento dos recursos do mar, e ter acesso facilitado ao conhecimento científico do IMAR/DOP”.

Tudo conversa, como se vê!

4. Durante largos anos a criação deste parque tecnológico vocacionado para as ciências do mar foi uma reivindicação das forças vivas do Faial e da sua comunidade científica.

Inclusivamente o investigador Gui Menezes, em 2010, defendeu nas páginas de um jornal faialense, de forma estruturada, a criação desse parque nas antigas instalações da fábrica da COFACO.

Na altura escrevia que “é neste contexto que me parece muito oportuno pensar-se na possibilidade de adaptação e requalificação da fábrica da COFACO de modo a poder albergar o Parque Tecnológico do Faial, ligado à investigação e à economia do mar (TEC-MAR). Na minha perspetiva não existirá melhor local”.

Agora o referido investigador é o membro do Governo que tutela esta área. O que falta para concretizar este investimento?

5. Pelo mesmo caminho do adiamento anda a promessa dos governos da República e da Região da instalação no Faial do Observatório do Atlântico.

Quando, onde e como se articulará com outras instituições, como o DOP, são questões para as quais ainda não encontrámos respostas objetivas.

E mais grave ainda é quando conversamos com pessoas ligadas à nossa Universidade e outras que se dedicam à investigação científica do mar e constatamos que nada de concreto sabem sobre esse Observatório.

Urge, neste domínio que o discurso do PS e do Governo passe à prática também no Faial. Nestes casos adiar tem sido sinónimo de perda de oportunidades, investimentos e empregos.