1. Os nossos netos também terão que pagar?
A comissão de inquérito ao setor público empresarial, que terminou os seus trabalhos no dia 30 de janeiro, veio pôr a descoberto muitos dos pormenores da gestão das empresas públicas regionais.
Não permitiu descobrir tudo, naturalmente. O seu objeto apenas compreendia o biénio 2016/2017 e cedo se percebeu também que nem todos estavam empenhados em chegar à verdade. O exército de soldados do partido do poder mostrou-se sempre mais empenhado em proteger o Governo Socialista que gere esta região há 22 anos.
Através do parecer do Tribunal de Contas referente à Conta da Região de 2017, foi também possível perceber que o valor global dos compromissos assumidos pela Região no final desse ano ascendia a cerca de 2.900 milhões de euros.
Quase três mil milhões de euros, que contabilizam a dívida direta da Administração Regional, os encargos com as parcerias público-privadas e a globalidade das empresas públicas regionais.
Um valor que a nossa geração não conseguirá pagar, e que por isso terá que passar também para os nossos filhos e, quiçá, talvez ainda para os filhos dos nossos filhos.
2. Três administradores para sete funcionários
A Ilhas de Valor tem três administradores nomeados pelo Governo e sete funcionários.
Este é um dos dados do relatório da comissão. Não colhe a justificação apresentada pelo governo, de tentar associar os colaboradores da VerdeGolf e do Golfe da Terceira, que já existiam antes da criação da Ilhas de Valor e continuarão a existir. Da empresa propriamente dita são mesmo estes: 3 gestores públicos e 7 trabalhadores da empresa.
A dívida da Ilhas de Valor, a 31 de dezembro de 2017, era muito superior a 8 milhões de euros. Mais concretamente, 8 milhões 681 mil e 235 euros. Uma empresa criada para apostar nas ilhas de coesão, mas cuja atividade principal acabou por se centrar numa ilha que nada tem a ver com as ilhas de coesão, e pouco mais fez do que gerir campos de golfe (e mal), realizar o negócio e a gestão ruinosa da SINAGA e dar “emprego” a administradores com o cartão rosa.
Os trabalhos desenvolvidos mostram também que o endividamento das empresas que foram analisadas pela comissão aumentou, de 2016 para 2017, mais 40 milhões de euros.
Só a SPRHI, recentemente extinta, e a SAUDAÇOR, que se encontra em processo de extinção, deviam mais de 800 milhões de euros, que passam para a dívida direta da Região.
3. Quem aprovou o relatório?
O Partido Socialista inviabilizou as propostas de conclusão do relator da comissão (do Partido Social Democrata) e elaborou as suas próprias propostas de conclusão.
O PS aprovou sozinho o relatório final, fazendo valer a sua maioria absoluta. Uma maioria absoluta democraticamente conquistada, diga-se, nas eleições regionais de 2016, mas que cada vez mais revela uma grande incapacidade de autocrítica.
Os socialistas dos Açores mostraram, uma vez mais, a sua incapacidade para ouvir a oposição. Impõem a sua versão dos factos a todas as outras forças políticas e a toda a população.
O partido no poder perdeu a capacidade de ouvir os outros, de ouvir quem quer que seja, quando o objetivo é “defender os seus”.
O Partido Socialista perdeu a capacidade de ouvir os açorianos.
No mundo cor de rosa das empresas públicas regionais, vai tudo bem.

