1. Por diversas vezes aqui tenho escrito e defendido que o desenvolvimento harmonioso e integral das nossas ilhas é a melhor resposta para orientar o nosso modelo de desenvolvimento, permitindo que todas as ilhas sejam tratadas com igual dignidade, justiça e equidade e procurando sempre conciliar ritmos individuais de crescimento, sem que nenhuma ilha atrase a outra, mas também sem que nenhuma fique para trás. Só assim se constrói, no respeito pela diversidade e pelas especificidades de cada ilha, a unidade dos Açores e se reforça a nossa Autonomia.
Infelizmente este não tem sido o caminho percorrido pela governação socialista de mais de 18 anos. O PS, quando ganhou as eleições em 1996, tudo fez para acabar com aquele que era um dos principais alicerces da nossa Autonomia: o desenvolvimento harmónico e integral de todas as ilhas. Diziam que este conceito era um chavão velho e desadequado à nossa realidade.
O resultado do modelo implementado pelo PS, então apelidado de “nova Autonomia”, está hoje bem à vista com a maior e a mais profunda crise social e económica da nossa Autonomia.
2. Mas o que fundamentalmente falhou nesse modelo de desenvolvimento do PS? Falhou a coesão territorial, social e económica dos Açores: das suas nove ilhas! O mais recente exemplo desse falhanço foram as reações ao plano de revitalização da ilha Terceira apresentado pelo Governo Regional.
A grande verdade é que, passados mais de 18 anos e gastos muitos milhões, esta governação socialista acentuou as assimetrias no desenvolvimento das nossas ilhas. A desertificação populacional (de ilhas e de concelhos dentro de algumas ilhas) é uma realidade assustadora que urge contrariar.
Os indicadores sociais e económicos da Região são terríveis. A Região continua a ser a campeã nacional do desemprego, com o desemprego jovem a rondar os 50%, quando ainda há uma década o nosso desemprego era residual.
Temos uma boa rede de equipamentos sociais mas continuamos a ser uma das Regiões mais pobres de Portugal com uma elevada taxa de incidência do RSI.
Temos excelentes edifícios escolares mas a Região lidera os índices de abandono e de insucesso escolar e temos mais de 60% dos alunos a necessitar de apoios sociais.
Temos bons edifícios hospitalares e centros de saúde mas os cuidados de saúde às populações têm vindo a piorar.
Temos novas e boas fábricas de lacticínios mas muitas das cooperativas que as gerem estão com enormes problemas financeiros e a lavoura está aflita, desanimada e, em algumas ilhas, quase falida. A perspetiva do fim das quotas leiteiras, a acontecer em breve, e a previsível baixa do preço do leite poderão originar mais uma calamidade social e económica.
Temos em muitas ilhas e em muitos concelhos portos e barcos novos, mas a maioria dos nossos pescadores não tem um rendimento digno, o que tem originado, em muitas comunidades piscatórias, dramáticos problemas sociais.
Temos aviões e barcos de passageiros novos, mas não temos um sistema de transportes fiável e competitivo que sirva para potenciar a nossa economia e para criar um mercado interno. E para agravar este objetivo descobriu-se agora, depois de muito encobrimento, que a SATA está praticamente falida.
E temos, provavelmente como resultado de tudo isto, uma economia frágil, de produção quase residual de riqueza, na maior parte das ilhas sustentada no funcionalismo público e numa dependência do estado que é cultivada e incentivada pelo governo como forma de controlar a sociedade e de garantir a perpetuação no poder.
3. Estes são os resultados vergonhosos da governação socialista dos Açores! E eles não são só consequência da crise generalizada que se sente na Europa e no Mundo. São, também e sobretudo, consequência de um modelo de desenvolvimento profundamente errado que se não for rapidamente corrigido levará a nossa Região, a passos largos, para o colapso.
E a solução não pode ser a de, mais uma vez, atirar com milhões para cima dos problemas ou fazer mais um plano. A solução passa por agir, implementando uma estratégia de desenvolvimento adequada e coerente. A solução passa por aplicar os novos fundos comunitários em investimentos reprodutivos, geradores de emprego e de riqueza.
O financiamento do novo quadro comunitário de apoio, que começa a chegar, poderia constituir uma nova oportunidade para os Açores. Porém, o passado desta governação dos Açores, velha de quase 20 anos, que teve como nenhuma outra tantos milhões à sua disposição, deixa-me as maiores dúvidas sobre a sua efetiva capacidade e discernimento para promover, desta vez, um sustentável ciclo de desenvolvimento dos Açores, corrigindo e alterando modelos e prioridades e, sobretudo, contribuindo para atenuar as angustiantes distorções de crescimento que se verificam entre ilhas.

