Harbord Collegiate Institute, Toronto, Setembro de 1976.
Depois de quase um ano a deambular por mais de um estabelecimento de ensino do Toronto Board of Education, em busca do “acolhimento” certo, a fim de poder frequentar o 13º ano de escolaridade obrigatória, na província do Ontário, para poder ter acesso ao ensino universitário, encontrei no Harbord Collegiate a “casa” certa que me levaria, posteriormente, a ganhar o acesso ao University College da Universidade de Toronto.
Por entre o ensino da história canadiana, da filosofia, da economia, das físico-químicas, da geografia, do francês e do inglês, aproveitei o ensejo de aprofundar os conhecimentos sobre a obra de Eça de Queirós, frequentando a aula de português da professora Laura Bulger.
De uma turma com cerca de 25 alunos, era eu o único de origem açoriana. Isto numa escola em que a população estudantil, cuja língua de origem era o português, os alunos de origem açoriana representavam mais de 80%. Todos os demais tinham as suas raízes em terras do continente português, à mistura com um ou outro italiano, chileno e brasileiro.
O Harbord Collegiate fica situado em pleno centro da cidade de Toronto, e, na altura, era rodeado por uma comunidade maioritariamente judaica, polaca e portuguesa, ou, melhor dizendo, açoriana, como é, ainda hoje, a grande maioria da comunidade de língua portuguesa de Toronto.
Foi este o primeiro “choque” que tive com a aculturação da comunidade açoriana de Toronto.
Era o retrato da aculturação por que passavam as muitas comunidades açorianas espalhadas por terras canadianas. Aculturação que hoje se aproxima da quase assimilação. Pese embora os avultados esforços que se têm desenvolvido nestes 38 anos de Autonomia.
A geografia das nossas ilhas pesa-nos bastante. É o nosso fardo. É a nossa história, no dizer de Nemésio.
A situação geográfica dos Açores sempre facilitou a emigração. Estamos numa encruzilhada, em pleno Atlântico Norte, entre as Américas e a velha Europa.
E a natureza, a história, a política e a economia das nossas ilhas sempre foram “madrastas” para com os seus filhos.
As deficientes condições de vida do Arquipélago levaram, ao longo dos anos, e ainda hoje, a fortes surtos de emigração, especialmente destinados aos Estados Unidos da América e ao Canadá.
As muitas catástrofes naturais – especialmente os nossos “famosos” terramotos – afugentaram famílias inteiras para os portos da Nova Inglaterra, para os vales da Califórnia, para as urbes do Québec, do Ontário e até da Columbia Britânica.
São Miguel “fartou-se” de “expulsar” homens e mulheres, jovens e menos jovens, muitos deles de mãos calejadas e corações sofridos, já que a pouca terra desta ilha estava concentrada nas mãos de uns poucos.
Havia todas e mais alguma razão para partir, para emigrar, nem que fosse para as terras gélidas de Manitoba ou Alberta.
O apego à terra não havia. Porque ela nunca fora sua!
O apego estava nas fábricas, nos “farms”, na construção civil do vasto Ontário que se traduziam em conforto, em orgulho de ser dono da sua casa, do seu carro, dos seus bens.
Projetos de regresso às ilhas?! O conforto, o bem-estar, as comodidades que os “loonies” canadianos adquiriam, rapidamente obliteravam do coração qualquer impulso de regresso as umas ilhas lindas mas “madrastas”.
Foi isto que o John, que havia sido João, e o Manny, que tinha na sua cédula gravado o nome de Manuel, me ensinaram no seu inglês perfeito, só raramente entrecortado por um ou outro “corisco”.

