Dilemas e contradições dos socialistas faialenses – Opinião de Luís Garcia
Publicado em 13 de Março, 2019

1. Todos já percebemos que a sociedade civil faialense está mais desperta para a defesa dos nossos interesses coletivos. Tem sido assim, entre outros, com a defesa de melhores acessibilidades, com os investimentos no porto, com a exigência de melhores estradas e de melhores cuidados de saúde. E é assim que deve ser!

Quem ainda parece não ter percebido essa mudança de atitude dos faialenses foram os socialistas faialenses que vivem num permanente dilema entre servir o chefe e o partido ou o Faial. Esse dilema adensa-se e atormenta, especialmente aqueles que querem continuar na vida política, perante os sinais que o chefe Vasco Cordeiro e a família César vão dando nos discursos e até na proteção daqueles que, no Faial, contra tudo e contra todos, vão defendendo o seu governo e o PS. Os exemplos mais recentes assim o demonstram.

Os deputados que na anterior legislatura tiveram a missão no Faial de defender o governo, e que até perderam as eleições em 2016, um foi para diretor regional e a Presidente da Assembleia foi reconduzida. Na atual legislatura o deputado de quem só se conhece na vida político-partidária “amens” a tudo o que o governo faz e não faz, já foi promovido por Vasco Cordeiro a chefe local dos socialistas.

Com esta atuação Vasco Cordeiro e a família César condicionam e deixam confusos alguns socialistas faialenses que ficam divididos, porque se, por um lado, precisam de estar nas boas graças dos chefes partidários, por outro, também precisam dos votos dos faialenses. Vai daí que, ultimamente, para tentarem ficar bem com deus e com o diabo, em algumas votações, optam pela abstenção. Vejamos alguns exemplos.

2. Há quinze dias dei aqui um exemplo relativo às estradas. O PSD apresentou, na última reunião do Conselho de Ilha, uma proposta que protestava contra a degradação das estradas e dos caminhos agrícolas e reivindicava a construção da 2ª fase da variante. Alguns socialistas naquele órgão, incluindo o presidente da Câmara, abstiveram-se. Porquê? Para defender os interesses do Faial é que não foi!

3. Na última reunião da Assembleia Municipal da Horta, o PSD apresentou uma proposta relativa às acessibilidades que protestava contra a programação de apenas 10 voos entre Lisboa e a Horta em julho e agosto; reivindicava, no mínimo, 14 ligações diretas nesses meses; insistia na necessidade de ser promovida a nossa rota direta com tarifas adequadas; e finalmente expressava preocupação com as informações contraditórias sobre a operação noturna da Azores Airlines no nosso aeroporto. Estas questões têm sido defendidas por quase todas as pessoas que vivem no Faial.

Então porque se absteve o PS? À falta de razões, abstiveram-se porque, na sua perspetiva, a linguagem utilizada era indelicada. Ou seja: o Governo e a SATA podem estrangular o Faial há quatro verões consecutivos, podem deturpar e mentir sobre os números das taxas de ocupação da rota Lisboa-Horta e até podem nem responder a muitas das deliberações em que os próprios socialistas do Faial participaram; mas tudo isso, para eles, é normal e até obriga…a que sejamos “delicados” com quem assim nos trata!

4. Na mesma reunião da Assembleia Municipal foi apresentada pela CDU uma proposta sobre os investimentos no porto que basicamente recomendava que, antes de se avançarem com obras na baía sul do porto, se faça um estudo rigoroso sobre a movimentação das águas no seu interior para que se evitem mais erros e que, entretanto, se avancem com as obras em terra. Mais uma vez o PS absteve-se! O mesmo PS que sempre disse, que jurou e jura que todas as soluções (e já vamos na 3ª versão do projeto) apresentadas para esta intervenção eram e são as melhores deste e do outro mundo, agora abstém-se! Afinal, têm dúvidas?!!

Este é o mesmo PS e o mesmo governo que em resposta a um requerimento parlamentar garantiu que a obra do cais norte “será sempre benéfica, em termos de agitação marítima para o saco sul do porto” e que reprovou, na Assembleia Regional, uma proposta para que se fizesse um estudo às obras daquele cais e ao seu impacto no saco sul do porto.

5. Para além destas abstenções (mais do que comprometedoras, absolutamente incompreensíveis!), o que mais me deixa perplexo e preocupado é que muitas destas posições são tomadas por pessoas jovens que deviam ser os mais ambiciosos, inconformados e corajosos na luta pelos nossos interesses coletivos. Espanta-me que, pelo contrário, continuem, salvo raras exceções, mais preocupados em não afrontar os chefes do Partido do que em defender intransigentemente as pessoas que os elegeram e lhes deram um mandato para a defesa do Faial.