Mais um verão com velhos problemas – Opinião de Luís Garcia
Publicado em 05 de Setembro, 2018

1. Vivemos um verão caraterizado pelo bom tempo, mas marcado no Faial por velhos problemas. Em alguns domínios, como as acessibilidades aéreas e a saúde, passam os verões e os problemas repetem-se e persistem sem que haja capacidade ou vontade de os resolver.

2. Ao nível das acessibilidades este verão fica de novo marcado pela oferta insuficiente de lugares nos voos para garantir a mobilidade dos faialenses e de quem nos quer vir visitar (praticamente 30 dias sem lugares disponíveis nas ligações Horta-Lisboa) e pelo mau serviço prestado pela Azores Airlines ao Faial, causando danos irreparáveis a este destino. E os episódios sucedem-se.

Ainda na passada sexta-feira o voo da manhã Lisboa-Horta-Lisboa foi cancelado por “falta de tripulação técnica” (ao que chegámos!!) e no da tarde a bagagem dos passageiros ficou em Lisboa. O voo desta segunda-feira também foi cancelado pelo mesmo motivo. Tudo isso acontece regularmente há quatro verões consecutivos! Basta!

No primeiro semestre deste ano o Faial foi a única ilha em que as dormidas tiveram um crescimento negativo (-0,5%), considerando todas as tipologias de alojamento.

Também num balanço recentemente feito à evolução do turismo nos Açores, nos últimos quatro anos, verifica-se que o Faial e S. Jorge foram as ilhas onde o crescimento foi menor (16%), enquanto que outras ilhas têm aumentos bem mais significativos: Terceira (81%), Corvo (60%), Flores (44%), Pico (40%), S. Miguel (37%), Graciosa (29%) e Santa Maria (25%).

Aos números do Faial não serão alheios os constrangimentos nas acessibilidades aéreas e merecem não só uma análise e reflexão profundas, mas também ações efetivas em cumprimento do muito que foi prometido e não foi cumprido nestes setores.

3. Na saúde mais um verão fica marcado pelo cancelamento de cirurgias no Hospital da Horta devido ao deficiente funcionamento do equipamento de refrigeração do bloco operatório. Ao contrário do que muitos querem fazer crer este problema não acontece apenas desde junho deste ano. Este problema arrasta-se, pelo menos, desde o verão de 2015. Nesse verão devido às altas temperaturas no bloco foram canceladas cerca de 80 cirurgias.

Ao longo desses anos, e sempre que a temperatura ambiente subia, muitos foram os sinais e os alertas de que este equipamento precisava de ser substituído com urgência. Deixou-se arrastar o problema, o equipamento avariou de vez e agora reza-se para que a temperatura ambiente não suba muito!

4. Em junho passado aconteceram de novo problemas com a refrigeração do bloco que levaram a mais cancelamentos de cirurgias. Na altura os deputados do PSD eleitos pelo Faial voltaram a questionar o Governo sobre este problema e foram acusados de faltar à verdade e até de levantar um não assunto. O tempo, infelizmente, encarregou-se de demonstrar o quanto tínhamos razão e quão grave é a situação.

Na sequência deste requerimento, a Secretaria Regional da Saúde esclareceu a Comunicação Social que “a substituição do equipamento de refrigeração do ar está previsto na empreitada que se vai realizar no Hospital da Horta” e que “para ultrapassar imediatamente o problema a administração do Hospital já decidiu proceder à instalação de equipamentos portáteis de ar condicionado no bloco operatório e posteriormente vai instalar também um equipamento de refrigeração provisório até que as obras fiquem concluídas”. Adiantava ainda que “esta questão deve ficar resolvida ainda durante a presente semana”.

5. Estas declarações podem ser verificadas na edição deste jornal do passado dia 25 de junho. Passados dois meses assistimos a nova suspensão das cirurgias programadas e percebemos que nada do que havia sido assumido publicamente em junho foi cumprido. E ainda ficámos a saber que o cancelamento de cirurgias é “residual” (os doentes que aguentem!) e que os prazos adiantados pela Secretaria Regional não vinculam a administração do Hospital, quando alguém desta declara que “a responsabilidade de estabelecer o prazo foi do Secretário Regional da Saúde e não do Hospital”.

6. Quem governa tem a obrigação de planear atempadamente os investimentos para que se evitem problemas desta natureza. E se isso é assim na generalidade das áreas por maioria de razão na saúde não podemos permitir que as coisas funcionem com esta imprevisibilidade e insegurança. Permitir que problemas destes se arrastem no tempo é inaceitável e uma irresponsabilidade.
Esta é minha opinião livre e fica aqui expressa numa sociedade dita democrática, mesmo que alguns teimem em cultivar o medo e que fiquem amuados e até me deixem de dirigir a palavra por causa das minhas opiniões e posições políticas. Isso não me condiciona nem me comove.

Aliás, a falta de cultura democrática e de aceitação do pluralismo de opinião por parte de alguns do regime nos Açores também é um problema velho e não é só deste verão.