Calai-vos e sede submissos! – Opinião de Luís Garcia
Publicado em 30 de Maio, 2018

1. Os Faialenses, nos últimos tempos e a partir de diversas origens, têm recebido algumas mensagens de que, mesmo perante os ataques e os constrangimentos criados ao desenvolvimento da sua ilha, o melhor é estarem calados. Uns de forma mais direta e outros sub-repticiamente lá vão deixando cair a mensagem, muitas vezes em tom de chantagem, de que quanto mais barulho fizerem, pior.

2. Até o presidente do Governo fez questão de dar essa mensagem aos seus correligionários do Faial. Na cerimónia de apresentação do projeto do polivalente da Feteira, agora designado edifício intergeracional, o presidente do executivo, de forma surpreendente e forçada (e, pelo que sei, também falsa), elogiou a suposta atuação do deputado socialista, eleito pelo Faial, no desenvolvimento deste processo com vista à concretização deste investimento. Este elogio público causou surpresa, em todos, mas sobretudo, entre os socialistas locais. E a surpresa pelas palavras de Vasco Cordeiro veio, primeiro, porque não é habitual este tipo de menções nas intervenções oficiais do presidente e, depois, porque não é conhecida qualquer tipo de atuação significativa do referido deputado neste processo.

As especulações sobre a razão de tal elogio forçado são mais que legítimas. Para alguns, o presidente quis dar uma ajuda ao trabalho difícil e ingrato que aquele deputado tem para defender sempre o governo no Faial. Porém, para mim, Vasco Cordeiro quis dizer aos socialistas do Faial algo mais profundo. Está agastado e descontente com os socialistas faialenses que têm tomado parte, com outras forças políticas, na tomada de posições contra o Governo e a favor do Faial. Por isso, só teve palavras de elogio para alguém de quem só se conhece na vida político-partidária “amens” a tudo o que o governo faz. Assim a mensagem implícita de Vasco Cordeiro para os socialistas locais foi clara: se quereis ser elogiados pelo chefe, calai-vos e sede submissos a mim e ao Governo. Perceberam?

3. Na mesma linha de atuação outros vão defendendo que mesmo perante o mau serviço que a SATA presta ao Faial temos de mudar de estratégia pois não podemos estar sempre a criticar e a “malhar”. Não sei se, pelo contrário, no entendimento destes visionários, devemos agradecer e elogiar a administração da SATA. É que todos os dias surgem novos episódios que acentuam a nossa revolta e indignação.

4. Os deputados do PSD eleitos pelo Faial, à semelhança do que já tinham feito para anos anteriores, solicitaram os números dos passageiros transportados e as taxas de ocupação das rotas de serviço público operadas pela Azores Airlines, no ano de 2017. A resposta ao nosso requerimento chegou e prova, mais uma vez, a boa taxa de ocupação média da rota Lisboa-Horta-Lisboa em 2017 com 75%. Com taxas em junho de 80%, julho 86%, agosto 85% e setembro 75%. E estas taxas poderiam ser eventualmente maiores não fossem as penalizações da pista e a decisão em cima da hora da realização de voos extraordinários.

Em 2017, a taxa de ocupação da rota Lisboa-Santa Maria-Lisboa foi de 56% e a da Lisboa-Pico-Lisboa de 74%.

Recordo que a taxa de ocupação da rota Lisboa-Horta-Lisboa no ano de 2015 foi de 79% e em 2016 de 75%.

Ora estes números provam que a rota da Horta está longe de ser uma rota com taxas de ocupação baixas como, em todo o lado, se quer fazer crer, desde o presidente da SATA ao Governo. Em segundo lugar, estes números provam igualmente que o critério utilizado para a definição do número de voos está longe de ser uniforme e objetivo. Varia conforme a cara do freguês! Perante estas boas taxas de ocupação em 2017 a administração da SATA decidiu diminuir o número de voos para julho e agosto de e para o Faial, quando para outras rotas, com taxas de ocupação semelhantes, aumenta o número de ligações.

5. E se dúvidas pudessem existir sobre o estrangulamento que esta administração da SATA e este Governo estão a fazer ao Faial, vejam os números do turismo no primeiro trimestre de 2018. Em comparação com o mesmo período de 2017, nos Açores, o número de dormidas cresceu: na hotelaria tradicional 9,6% (Faial cresceu 6,5%); no turismo em espaço rural 4,5% (Faial decresceu 43,9%) e no alojamento local 28,4% (Faial decresceu 10,5%). Resumindo nos Açores no 1º trimestre deste ano o número de dormidas cresceu 11,5% e no Faial apenas 0,4%.

E perante tudo isto o que devemos fazer? Calar-nos? Eu não me calo. Exigirei, porque é justo e necessário, um melhor serviço da SATA ao Faial.