Dividir para Governar – Opinião de Catarina Furtado
Publicado em 09 de Abril, 2018

Na guerra e na política recorre-se a uma estratégia conhecida em sociologia como “dividir para conquistar” ou “dividir para reinar”. Basicamente trata-se de uma manobra de aquisição de controlo e de enfraquecimento dos “adversários” por via da sua fragmentação ou desagregação. Através da divisão rompem-se as estruturas de poder, tornando-as, à partida, mais frágeis.

A autoria da expressão dever-se-á, em principio, a Júlio César, que na sua obra “De Bello Gallico”, escreveu “divide et impera” ou “divide et vinces”, ou seja “divide e impera”, ou “divide e vence”. Foi a estratégia que utilizou para subjugar os gauleses.

Também Alexandre Magno, o general chinês Sun Tzu ou o pensador e político italiano Nicolau Maquiavel utilizaram a estratégia de separação das forças inimigas para as enfraquecer, com resultados positivos, diga-se de passagem.

É, de facto, uma estratégia muito antiga, mas com uma eficácia tal, que a sua utilização perdura ainda nos tempos de hoje.
Não ponho em causa que a governação e a perpetuação de um partido no Poder sejam facilitadas por esta estratégia. Também não será menos verdade que um povo dividido é um povo usado/explorado pelas suas fragilidades, que um povo dividido não mostra todo o seu potencial e que uma Região dividida é uma Região sem grandes perspetivas, marcada tão somente pelo “mando e desmando” de uns poucos bafejados pela “sindrome da superioridade ilusória” sobre a fraqueza, “ignorância” ou as necessidades de muitos outros.

Numa Região com nove parcelas de território isoladas, como é o caso dos Açores, a tarefa de dividir para governar surge facilitada. E usa-se, tem-se usado politicamente tantas quantas vezes quantas se considerou necessário. Aliás, tem-se usado tanto que chego a duvidar que se esgote a vontade de ter ilhas contra ilhas ou açorianos contra açorianos.

O Povo deixa-se levar. Será que não percebe que as estratégias são antigas, que os objetivos são maquiavélicos, egoístas, interesseiros e mesquinhos?

A corrente teórica da Psicologia de Gestalt mostra bem a perda de potencial que decorre da divisão de um todo. A sua frase brilhante “o todo é maior que a soma das partes” espelha que verdadeiramente juntos, e em conjunto, seriamos melhores, mais capazes, mais fortes.
Mas estamos num ponto em que até a própria solidariedade surge como arma de arremesso.

Abomino ouvir dizer que as ilhas maiores têm de ser solidárias com as mais pequenas. Não se trata de solidariedade, mas sim de estratégia para a coesão social, económica e territorial. Era disso que se deveria tratar, mas a esperteza saloia de alguns poucos – os Senhores desta Terra, não permite tal iluminação e revela a nossa “pequenez”.

Só assim se entendem os discursos bairristas de figuras e entidades de poder e responsabilidades políticas. Se São Miguel tem, a Terceira tem de ter; se o Pico tem, o Faial tem de ter (ou vice-versa) – infelizmente não raras vezes ouvimos isso… As partes isolam-se, ou somam-se simplesmente, quando o seu “todo” seria bem maior – É uma estratégia que se usa recorrentemente e que tem funcionado para servir os interesses de uma maioria gasta de ideias e ferida de princípios éticos e morais…

E assim se mantém o controlo soberano sobre as populações, jogando com interesses de partes, partes que juntas e em união poderiam ser capazes de causar uma oposição forte e perigosa – uma oposição indesejável para aqueles que querem dividir para governar.