Discurso político de conveniências – Opinião de António Vasco Viveiros
Publicado em 13 de Março, 2018

O discurso político do Partido Socialista e do Governo em vários momentos, durante o ano de 2017, ficou marcado pela narrativa do sucesso económico nos Açores, designadamente com o crescimento do PIB em 2016 de 2,1%, superior aos 1,4 % registados no país.

Esta circunstância foi o motivo principal para a (pseudo)interpelação no Parlamento, apresentada pelo Partido Socialista em junho de 2017.

Recordamos então as declarações do líder da bancada parlamentar socialista: “Segundo as mais recentes estimativas, a economia dos Açores registou um crescimento de 2,1% em 2016, o que atesta um ritmo de crescimento superior ao do país, ao da Zona Euro e ao da própria União Europeia…”.

O Vice-presidente do Governo manteve a mesma linha: “Se em termos de crescimento económico se assiste a uma retoma da economia nacional, a verdade é que, o crescimento económico nos Açores é, de acordo com os mesmos dados, superior ao verificado no País nos últimos dois anos, ou seja, a nossa economia está a crescer a um ritmo ainda superior ao que se verifica no País.

E continuou: “Se em termos de emprego se regista um crescimento acentuado da criação de emprego no País, a verdade é que, de acordo com os mesmos dados, o crescimento do emprego e a redução do desemprego, nos Açores, são ainda mais acentuados. Efetivamente, no último ano o crescimento económico já atingiu nos Açores 2,1% enquanto no país aumentou 1,4%.”

Ou seja, não só as notícias eram boas de per si, mas sobretudo, estávamos a crescer mais do que o país e do que a União Europeia.

Porém, os dados da variação do PIB, sendo provisórios estão sujeitos a ajustamentos, normalmente na ordem de uma ou duas décimas, mas estranhamente em 2015 e 2016, as alterações foram significativas. Com a publicação das contas definitivas os valores alteraram-se: em 2016 os Açores afinal tiveram um crescimento de apenas 1,6% e o país de 1,5%. Mas o discurso estava feito e é o que importa para a maioria.

Por outro lado, o valor provisório do PIB nos Açores em 2015 foi corrigido em alta, passando de 1,7% para 3%.
Esquecendo o discurso anterior, a correção dos valores do PIB implicou também a correção do discurso pelos governantes. Agora o relevante já não é o crescimento superior ao país como foi tão apregoado, mas sim o simples crescimento em 2017 relativamente a 2016.

Quando as comparações com o país ou com a União Europeia são favoráveis interessa comparar. Quando, pelo contrário, são desfavoráveis, a demagogia do Partido Socialista sempre encontrará algo de positivo, esquecendo-se de qualquer coerência.

Mas sendo o objetivo central aproximar os Açores da média da riqueza nacional e da União Europeia, importa, para além do comportamento num único ano, conhecer comparativamente como temos evoluído num período mais alargado.

Evolução do PIB
As conclusões da evolução entre 2014 e 2017, ainda que com reservas relativas ao último ano pelos dados serem provisórios, não são animadoras: não nos aproximámos do país e divergimos da União Europeia (cujas estimativas apontam para um crescimento em 2017 de 2,5 %).

Curiosamente, o único ano em que convergimos foi o de 2015, afigurando-se relevante entender com detalhe quais as causas, sendo certo que foi o ano em se iniciou a liberalização do transporte aéreo de passageiros com o exterior.
Em matéria de crescimento económico ou em qualquer outra área da realidade económica, é fundamental confiar nas fontes estatísticas e nos sistemas existentes.

Os ajustamentos substanciais efetuados aos valores provisórios do PIB de 2015 e 2016, vem reforçar a necessidade de alterar o funcionamento do Serviço Regional de Estatística, que depende da Vice-presidência do Governo Regional.

O SREA deve passar a constituir um Instituto independente, com o seu Presidente nomeado por 2/3 do Parlamento tal como já propôs o PSD/Açores.

Importa, acima de tudo, afastar qualquer suspeita que possa existir na “verdade” e na qualidade estatística a que os Açorianos têm acesso.