“Chega-te para lá” – Opinião de Catarina Furtado
Publicado em 26 de Março, 2018

A vida é feita de demasiados “chega-te para lá”, quem ainda não percebeu isso seguramente vive numa redoma de ingenuidade.

Existem os “chega-te para lá” necessários e os não necessários. Para o artigo que escrevo interessam os segundos. Estes existem porque existem os “eu cheguei” ou os “eu é que mando”. Existem porque, não poucas vezes, os laivos de grandeza predominam, os endeusamentos ocorrem e os pedestais imaginários teimam em sustentar determinados egos. Existem por falta de humildade, por falta de capacidade de agregação ou falta de inteligência emocional. Por uma, ou por várias razões, eles existem e vão existir sempre – É inevitável.

É justo? Não, claro que não, mas é a realidade. Portanto, a quem se vê atropelado pelos “chega-te para lá” cabem duas opções, a primeira é “engolir o sapo”, a segunda é elevar-se e atuar com firmeza. Nenhuma delas é fácil e a opção por uma ou por outra alternativa decorre naturalmente de contextos e, certamente, de “estômagos”.

Em ambos os casos entram em linha de conta, sobretudo, os interesses, pessoais ou não, e as necessidades. Aliás, são estes também fatores que conduzem à imposição dos “chega-te para lá”.

É assim nas lides domésticas, no meio profissional, mas também nos meandros da política.

No geral, os “chega-te para lá”, numa perspetiva de escala, são praticados por poucos e poem à prova a capacidade de encaixe de muitos. É uma imposição para açambarcar espaço alheio que não obedece a leis de equidade ou paridade. É uma imposição feroz, ambiciosa, atrevida e, muitas vezes, insaciável.

Volto à questão dos interesses, já que são fatores reconhecidos que em grande parte determinam a prática e também a forma de atuação perante o atropelo dos “chega-te para lá”. No caso dos interesses não pessoais, poder-se-á considerar a questão do tal Bem Maior – algo muito importante, um pouco intangível porventura, mas que prevalece sobre todos os interesses particulares.

Julgo que neste aspeto particular poder-se-á gerar alguma confusão, não intencional, com a forma de pensamento do historiador, diplomata, poeta, músico, filósofo e político italiano Maquiavel, que transmitia a ideia de que “os fins justificam os meios”, assumindo a validade de qualquer ação para manutenção da autoridade e poder. Não julgo que seja necessário chegar ao extremo de considerar que alguns estejam acima da ética e moral para concretização de determinados “fins” e que seja essa a motivação principal dos “chega-te para lá”, se bem que não a coloco totalmente de parte enquanto origem do problema. Ainda assim, quero afastar destas minhas linhas escritas qualquer interpretação tradicional do pensamento maquiavélico.

Voltando ao conceito de Bem Maior, evidencia-se um problema – diferentes pessoas têm diferentes personalidades, diferentes sensibilidades, diferentes valores, o que é suficiente para determinar, igualmente, diferentes perceções e entendimentos para o que será o bem maior, para qual será a melhor forma de o alcançar e para quem serão os melhores protagonistas para a sua concretização.

É por isso fundamental, para que a atenuação do fenómeno do “chega-te para lá” se afigure possível, que haja muita ponderação na escolha de figuras com capacidade de decisão, porque tendo eles determinadas características pessoais e sociais, farão toda a diferença. Saberão rodear-se, saberão reconhecer bom trabalho, saberão motivar e agregar, em suma saberão liderar. Neste caso não haverá necessidade de impor os tais “chega-te para lá”, porque os espaços aumentarão de forma natural e sem lógica espacial e a cedência ocorre porque deve ocorrer e não porque tenha de ocorrer. Faz diferença.