Estes governantes não gostam do Faial – Opinião de Luís Garcia
Publicado em 23 de Fevereiro, 2018

1. Para quem vive num arquipélago não ter bons transportes aéreos e marítimos é normalmente sinónimo de enormes constrangimentos ao desenvolvimento desses territórios e à vida das pessoas. É o que se passa com a nossa ilha. O Faial continua de forma inquietante e preocupante a viver confrontado com enormes constrangimentos resultantes das acessibilidades aéreas, agravados, este ano, com indefinições no transporte marítimo de passageiros.

2. Face ao acidente com o navio “Mestre Simão” muitos cidadãos e agentes económicos das ilhas do Triângulo esperavam que fosse alugado um navio para o substituir. Mas o Governo e a Atlanticoline decidiram não o fazer. Mais do que criticar esta opção, o que critico é a falta de explicações que a fundamentem e, sobretudo, a falta de apresentação atempada e imediata de alternativas sólidas e convincentes para colmatar a falta deste navio na operação de transporte marítimo no Triângulo e no Grupo Central, desde logo, na época alta que se avizinha.

Até esta data, o Governo e a Atlanticoline revelaram-se incapazes de apresentarem essas alternativas e limitaram-se a anunciar a construção de um novo barco, pronto para os fins de 2019. Ora isso é manifestamente insuficiente. É urgente que os cidadãos e os agentes económicos destas ilhas saibam com o que contam no imediato. Ninguém ainda sabe que navios e onde vão operar, com que horários e em que linhas. Como podem os agentes económicos programar e vender a época alta se nem os horários ainda conhecem?

3. Se a indefinição reina no transporte marítimo, nas acessibilidades aéreas as coisas não estão melhores, com a agravante de ser um problema que persiste há anos. Estamos à beira de mais um verão e pouco ou nada sabemos sobre o planeamento da SATA especialmente para a rota Lisboa-Horta. E mais preocupados ficamos se, por estes dias, fizermos uma pesquisa ao site da SATA e verificarmos que, por exemplo, nas duas primeiras semanas de agosto estão apenas previstas nove ligações semanais diretas entre Lisboa e a Horta, quando no Faial todos reclamamos e necessitamos de, pelos menos, catorze.

Mas há mais nuvens negras que pairam sobre a capacidade da Azores Airlines em nos dar as respostas adequadas em mais um verão IATA que se aproxima. Recentemente a Secretária Regional das Transportes na sequência de uma audição na Comissão de Economia da Assembleia Regional declarou que em 2018 “no caso do Continente vamos operar um ano com menos uma aeronave em virtude da alteração da frota e, portanto, é um desafio para a empresa no âmbito de uma gestão que terá que ser feita de forma dinâmica”. Estas declarações são equivocas porque a aeronave que aparentemente a SATA terá a menos é um A310 que não opera na Horta. Será que em função disso será desviado algum A320 para outras rotas que não as do Triângulo?

Por estes dias também a Câmara de Comércio e Indústria da Horta (CCIH) e a Associação Comercial e Industrial da Ilha do Pico (ACIP) reuniram, em Ponta Delgada, com a SATA. A reunião e os resultados do encontro com a ACIP foram amplamente divulgados, designadamente com o anúncio de mais uma ligação entre a Lisboa e o Pico neste verão. Em relação ao encontro com a CCIH nem a reunião nem os resultados foram conhecidos. Porque será?

4. A indefinição que reina em termos de transportes para o Faial foi-me resumida por um empresário de forma eloquente: “quando os operadores turísticos já estão a trabalhar em 2019, a SATA e a Atlanticoline ainda não sabem o que vão fazer no verão de 2018… Uma vergonha!”

As consequências destas indefinições e constrangimentos nas acessibilidades têm provocado consequências extremamente negativas ao Faial. Elas estão bem à vista nos números do turismo que o Serviço Regional de Estatística revelou recentemente. Em 2017 nos estabelecimentos hoteleiros dos Açores (hotéis, hotéis-apartamentos, apartamentos turísticos e pousadas) o número de dormidas cresceu 15,8% em relação a 2016. No Faial esse crescimento foi de 1,1%. Pior que nós, só mesmo o Corvo.

Na semana passada conversava com um ilustre socialista desta ilha que, com enorme desilusão, desabafava: “o maior problema com que estamos confrontados enquanto comunidade não é a falta de soluções para os nossos problemas, porque havendo boa vontade elas existem; o problema é que estes governantes e este PS regional, não gostam do Faial”. Acho que ele tem razão!