Conduzir um camelo – Opinião de Sofia Ribeiro
Publicado em 11 de Novembro, 2017

Na passada semana integrei uma delegação de Deputados ao Parlamento Europeu que se deslocou à Jordânia e aos Emirados Árabes Unidos (EAU), a convite do Conselho Federal Nacional (CFN) deste último, com o intuito de conhecermos os desenvolvimentos científicos e tecnológicos, bem como a política de tolerância, de integração social e de relacionamento com uma vizinhança altamente instável em que reina a discriminação, essencialmente no que respeita às mulheres.

Visitei o hospital de campanha que os Emirados lançaram e patrocinam na Jordânia, proporcionando à população mais desfavorecida acesso a meios de diagnóstico e de tratamentos de saúde de qualidade, bem como o campo de refugiados Sírios, também na Jordânia, que criaram e gerem em parceria com o movimento Crescente Vermelho. Este é um campo de referência no que concerne às condições que proporciona aos refugiados. O espaço de celebração de casamentos e o parque infantil bem o demonstram. Cada família dorme em pré-fabricados que dispõem de electricidade e tem acesso à televisão e à internet. As mulheres confeccionam a comida para a família em cozinhas comunitárias e desenvolvem trabalhos de costura e bricolage. Os homens fazem trabalhos em madeira, ferro, alumínio e de electricidade, não apenas como ocupação de tempos livres, mas de desenvolvimento de competências numa perspectiva de futuro regresso ao seu país. As crianças e jovens têm aulas, inclusivamente de programação informática, e já há um grupo que frequenta a Universidade de Amã e até mesmo um jovem já obteve a sua licenciatura e foi integrado no mercado de trabalho e na comunidade Jordana. As condições são excelentes, o objectivo é o de acompanhar seres humanos até que estes possam regressar ao seu país, mas não deixam de ser pessoas com a vida em suspenso, cujo sonho é o de reconstruirem as suas vidas. Por muita informação que recebamos, constatá-lo é avassalador.

Numa zona altamente marcada pelo radicalismo, pelo terrorismo e pela segregação, os EAU estão a fazer a diferença, dentro e fora de portas, pela defesa da tolerância. Não mo relataram, pude constatá-lo. Pela primeira vez no mundo árabe, há uma mulher à frente do Parlamento (o CFN), a Dra. Amal Al Qubaisi, o que é exemplar e nos confere um alento de mudança. Reuni com a Direcção da Hedayah, uma organização que actua essencialmente na prevenção contra o extremismo violento, e com o Ministro da Tolerância, que tem como objecto disseminar este valor nos EAU e no restante mundo árabe. Um dos pontos altos da visita foi a audiência com o Príncipe Real dos EAU, que utilizando uma alegoria própria daquela civilização, quis marcar que a segregação das mulheres nada tem a ver com a religião, mas com a cultura de homens que as querem dominar. Se as mulheres podiam conduzir camelos nos tempos do Profeta Maomé, actividade tida como da mais elevada perícia, nada na religião muçulmana as diminui nas suas capacidades. Um discurso deveras inspirador.

Utilizando a mesma alegoria do Príncipe, e havendo muitas outras dificuldades para ultrapassar no Mundo global onde reina a insegurança e que requerem elevada perícia, persistência e diplomacia, há ainda muitos “camelos” para conduzir e dominar. Os “camelos” do preconceito, da xenofobia, do extremismo, da violência e da segregação das mulheres. Não há como a vontade Humana para conduzi-los.