Em negação – Opinião de João Bruto da Costa
Publicado em 16 de Outubro, 2017

Assistimos ao delírio das manifestações de estupefação perante a acusação de José Sócrates.

As expressões repetidas ad nauseam do “como é que não demos por isso?” Ou “isto aconteceu tudo debaixo do nosso nariz!”, deixam-me angustiado.

Então não se deu por nada? Ou terá sido a clubite partidária que teimou sempre em ver cabalas e urdiduras onde existiam suspeitas e irregularidades?

É muito mais cómodo dizer-se que não se viu nada ou que não se deu por nada e que nunca em tal pensaram, tal a excelência da suposta vigarice.
Mas não é verdade que tenha sido assim. Tal como hoje se procura ignorar muito do que pode levar a “esquemas” em ações levadas a cabo pela administração, seja concursos, apoios, subsídios ou obras, outrora fez-se o mesmo e não fosse a falência do país ainda andávamos em alucinação coletiva.

Como é que podemos ouvir, constantemente, que persistem formas de corrupção e depois dizer que não demos por nada?

Quais são hoje os organismos públicos que aplicam, monitorizam, ou sequer leram, os instrumentos de prevenção e deteção da corrupção?

Haverá melhor sintoma de governos em negação do que um sistema que se conforma com o poder de um eventual vigarista?

Então como agora, exige-se a quem usa do poder público muito mais do que um absurdo: “não dei por nada!”