A primeira pedra da falta de vergonha – Opinião de João Bruto da Costa
Publicado em 14 de Setembro, 2016

Se mais necessidades houvesse, de provas de que a falta de vergonha tomou conta do partido que governa os Açores há já vinte anos, os últimos dias provaram que, para quem desespera por manter um lugarinho ao sol, vale mesmo tudo!

Em 2004, no seu manifesto eleitoral, o PS prometia aos graciosenses a construção de um “núcleo de recreio náutico”, na Praia. Depois, em 2008, nada tendo feito de apoio aos proprietários de embarcações de recreio ou aos empresários do sector, o PS veio prometer a construção de um “Porto de Recreio”.
Em 2012 – nas vésperas das eleições, depois de andar quatro anos a adiar essa obra e de lançar culpas por entre autarquia (por acaso também do PS) e entidades externas – o Partido Socialista, liderado por Vasco Cordeiro, veio à Graciosa apresentar um cartaz de início de obra do prometido porto, agora como “Marina da Barra e requalificação da envolvente”.

Já antes disso, em Novembro de 2011 o mesmo Vasco Cordeiro tinha anunciado, em pleno parlamento dos Açores, que o concurso público da prometida obra iria ser lançado e que a obra teria início na legislatura de 2008/2012.

A urgência do início da obra naquela altura era ainda maior, pois acabava mais um quadro comunitário e o quadro seguinte podia não apoiar obras daquela natureza. Dito e feito, quer dizer; acabou o quadro comunitário, esfumaram-se os fundos comunitários para aquelas obras e nem a obra saiu do cartaz nem os graciosenses, que esperam desde 2004 por um porto de recreio, viram a obra iniciar-se.

Chegados a 2016, a um mês das eleições que vão decidir sobre a composição do parlamento dos Açores, e depois de adjudicada há mais de 5 meses, é anunciado, em jeito de acto de pré-campanha, o lançamento da primeira pedra da prometida obra de construção de um porto de recreio, mas com a nuance de já não ser um porto de recreio. É uma obra de protecção costeira e depois “logo se vê”, conforme foi dito na última visita do governo quando questionado sobre a obra que se seguirá, ou seja, a verdadeira obra de apoio aos empresários do sector e aos proprietários de embarcações de recreio.

Bastava esta cronologia de eventos e promessas não cumpridas ao longo de mais de 12 anos para envergonhar qualquer dirigente político que se preze, mas não, nada disso, quem não tem vergonha e acha que pode festejar o início de uma parte da obra prometida em 2004 decidiu, em nome do PS, armar-se em dono da obra e, vai daí, começou a convidar todos os graciosenses para a “festa socialista” de lançamento daquela primeira pedra.

Entretanto, como a pressa e o desespero são inimigos do bom senso e da urbanidade, a festa teve de ser cancelada e a obra começa sem a primeira pedra de Vasco Cordeiro, ao som da sua música de campanha eleitoral.

Este comportamento de total desrespeito pela inteligência das pessoas e de completa arrogância na apresentação de inícios de obras que deviam já estar concluídas há muito, vem demonstrar o quanto é necessário mudar, pois isso, como todos sabem na Graciosa, é necessário para podermos olhar o futuro com esperança.

Quando o poder partidário, misturado com os eventos de um governo de 20 anos em pré-campanha eleitoral, instrumentaliza a coisa pública para festejos de um partido político, temos o sinal claro de que atingimos a decrepitude democrática e torna-se imprescindível dar aquele “murro na mesa”, mesmo que seja apenas no resguardo de uma cabine de voto, pondo termo a quem acha que as pessoas estão ao seu dispor, e a coisa pública é meramente um veículo de permanência no poder.