Resgatar os Açores – Opinião de João Bruto da Costa
Publicado em 09 de Março, 2016

A situação das pescas nos Açores é o retrato de como décadas de um governo, apostado sempre em políticas centradas nos ciclos eleitorais, podem pôr em causa a sustentabilidade de um sector de actividade, o seu futuro e o rendimento dos seus profissionais.

Já o mesmo aconteceu na agro-pecuária e na crise que vive o sector do leite em que, também por os Açores terem um governo apenas empenhado no imediatismo dos últimos meses antes das eleições, se pôs em causa o presente e o futuro de milhares de açorianos que foram acreditando em políticas de encher o olho mas que se revelaram tudo menos adequadas para enfrentar os momentos mais difíceis que se avizinhavam.

Nas pescas o poder socialista andou anos a fio a assobiar para o lado sobre a sustentabilidade dos stocks, o esforço de pesca, os alertas dos próprios profissionais e da universidade e todas as incidências que agora condicionam o já muito baixo rendimento dos pescadores.

Com o Fundopesca o governo socialista fez uma espécie de cheque-voto, pago na conveniência eleitoral e só depois de levar ao desespero muitas famílias.

É a habitual gestão eleitoral do sector primário em que socialistas dependentes do poder se misturam com os interesses de sectores de actividade, ignorando os reais interesses das fileiras, apenas para se tornarem uma espécie de culpados com álibi, fazendo depender da sua continuidade no poder um certo status de que alguns vão beneficiando.

Já foi assim com o rendimento mínimo, em que os apoios à pobreza foram usados como rendimento eleitoral que tinha como condição uma continuidade no poder, por parte de quem se diz amigo dos mais fragilizados, mas que nada faz para os autonomizar e capacitar para uma ambição de liberdade económica.

Não interessa aos socialistas agarrados ao poder e a uma elite dele dependente que nas pescas, na agricultura, ou na sociedade em geral, haja liberdade de determinação ou capacidade crítica. Isso seria desastroso para quem aparece sempre em ano eleitoral com soluções milagrosas, anúncios de obras ou medidas cheias de cor-de-rosa que não resolvem os problemas e que, no caso das pescas, até os agravaram!

É bonito de ver o anúncio de resgates ou de outras ideias que parecem ser de inovação e de solução mas que apenas surgem depois do mal feito, ou seja, como diz o povo: casa roubada, trancas à porta!

As diferenças de ilha para ilha e entre comunidades piscatórias são relevantes para se entender o sector. O esforço de pesca das diferentes espécies, a necessidade de preservar recursos que garantam o futuro sem deixar ruir o investimento que muitas famílias fizeram não pode continuar a ser fruto apenas das necessidades eleitorais de um poder que, nos diferentes sectores de actividade, já demonstrou ser apenas capaz de se reinventar à espera de mais um voto de quatro em quatro anos.

Os Açores não aguentam mais esta elite rosa que apenas valoriza os investimentos feitos em infra-estruturas como se fosse dinheiro seu – mas que na verdade saiu dos bolsos dos contribuintes açorianos e dos fundos da União Europeia – e esquece quem dá todos os dias o máximo que tem para um parco rendimento que continua penalizado por um poder que nunca quis olhar para os problemas, mas sim aproveitar-se deles para dividendos políticos.

Para o poder socialista dos Açores os resgates nunca são sua responsabilidade e ainda podem ser culpa de todos os outros.

É tempo de resgatar os Açores do poder que serve apenas alguns, deixando uma grande maioria a pagar a factura.