Uma vitória ímpar – Opinião de Cláudio Lopes
Publicado em 08 de Fevereiro, 2016

No passado dia 24 de janeiro, do corrente ano, Marcelo Rebelo de Sousa foi eleito Presidente da República Portuguesa. O Professor torna-se assim no 20º Presidente desde que foi implantada a República e no 5º cidadão português eleito para o cargo, após a reimplantação da Democracia em Portugal.

O que esta vitória tem de ímpar, relativamente às anteriores que foram alcançadas também à 1ª volta por Ramalho Eanes (1976), por Jorge Sampaio (1996) e por Cavaco Silva (2006), nem é a expressão eleitoral (52%), pois em 1976 a vitória foi de 61,6% e em 1996 foi de 53,9%.

O que ela tem de ímpar é o facto de corresponder à vitória nacional geograficamente mais abrangente.

Marcelo Rebelo de Sousa venceu as eleições em todos os distritos do continente português e em todas as freguesias dos Açores. Isto é que é verdadeiramente inédito neste tipo de eleição e em qualquer eleição de índole nacional, desde 1976.

Mas os resultados desta eleição têm também algo que a diferencia dos atos eleitorais atrás referidos. É a eleição que elege o Presidente com menor número de votos, com maior número de adversários (nove) e com a mais elevada taxa de abstenção (51%).

Tem ainda outras particularidades:

1 – A soma dos resultados dos dois candidatos suportados pelo Partido Socialista, Sampaio da Nóvoa e Maria de Belém (27%), corresponde a pouco mais de metade da percentagem alcançada por Marcelo (52%).

2 – A candidata apoiada pelo Bloco de Esquerda, Marisa Matias, ficou em terceiro lugar, entre dez candidatos.

3 – Tino de Rans, ficou em sexto lugar, com resultado muito idêntico ao do candidato apoiado pela CDU, Edgar Silva.

Os resultados eleitorais de 24 de janeiro passado devem levar a uma reflexão mais profunda do que a sua mera análise numérica.

Várias leituras poderão ser feitas.

Uma delas é a elevada pulverização dos votos em dez candidaturas. Nunca houve tantas na nossa Democracia recente. Até agora o máximo tinham sido seis, em 2006.

Outra é a de que sendo este tipo de eleição cada vez menos partidária e mais personalizada, mesmo assim a abstenção atinge um valor muito relevante. Mais de metade dos eleitores optaram por não o fazer (51%).

O Presidente acaba por ser eleito por cerca de 25% dos cidadãos com capacidade eleitoral. Significa que 75% dos eleitores não contribuíram para a eleição do novo Presidente da República.

Outro dado a reter é de que a campanha eleitoral, no seu global, mas em particular a de Marcelo, foi das mais contidas de sempre, em propagandas ditas tradicionais.

Por cá, pelo menos na minha ilha (Pico), nem um cartaz de rua se viu com a cara de Marcelo.

Claro que Marcelo beneficiou muito do facto de ter entrado em casa dos portugueses durante muito tempo através da TVI. Era assim muito conhecido. Além de que tem muitos e bons atributos de que o povo gosta. É simpático, empático, acessível, exibe bom senso e vasta cultura. Revela sensibilidade social, sendo detentor de larga experiência política. Inspira confiança e competência. Tudo quesitos que jogam a favor de um candidato.

A abstenção nos Açores bateu todos os recordes (69%). Logo a vitória de Marcelo nos Açores é de 58% dos apenas 31% eleitores que foram às urnas, ou seja, corresponde a 18% dos eleitores inscritos.

Com estes resultados, cabe a quem de direito dar a devida interpretação e diligenciar na procura urgente de medidas que alterem este comportamento social de indiferença aos atos eleitorais.

Resta saber se a solução passa pela utilização de “expedientes” que são usados em determinados atos eleitorais e que mobilizam mais o eleitorado (e se for isso, então estaremos a assistir à destruição do sistema democrático), ou se passa por uma reforma do sistema político que permita que os cidadãos eleitores se identifiquem mais com as candidaturas e por isso, somente por isso, sejam incentivados a ir às urnas.