Cinzas – Opinião de João Bruto da Costa
Publicado em 10 de Fevereiro, 2016

São já quase diárias as exteriorizações que assinalam o estado a que se chegou em termos político-sociais nos Açores.

Das empresas públicas usadas e abusadas pelos interesses da caça ao voto e da sustentação de dependências, passando pela insistente e arrogante catequização de um poder absoluto que impõe uma espécie de razão totalitária, impingindo a sua doutrina na história contemporânea “oficial”, não esquecendo os tiques de guardiões vigilantes de comportamentos subversivos, como uma polícia de costumes, que onde quer que haja alguém que conteste o seu livre arbítrio maioritário logo faz notar a sua presença.

Para se ter chegado a este ponto em que já ninguém sabe onde começa e acaba o poder do partido e o poder conferido pela autoridade pública, damos connosco a confundir os representantes do povo com os vigilantes do descontentamento popular.

E este poder de duas décadas de exercício gerou, por entre injustiças e ingratidões, uma ineptidão para inovar e ousar fazer melhor ou fazer diferente.

Ao fim destes 20 anos em que há já uma geração que não sabe fazer outra coisa além de ser de uma determinada organização política de juventude para depois chegar a um qualquer cargo político de pré-idade adulta para, com alguma sorte, poder vir a ser director de qualquer coisa ou administrador de uma qualquer empresa do partido… perdão, queria dizer do Estado!

Por fora desta “elite”(entre aspas por isso mesmo) que se deleita nos jogos de lugares e de cargos remunerados, corre uma maioria de outros talentos, esses sim, com ânsias de levar avante novos projectos de desenvolvimento da sua terra ou do seu projecto profissional.

Nesta proliferação de comissários políticos, investidos na condição de qualquer coisa de importante, perdeu-se o ensejo de fazer coisas novas, de empreender, de ousar pensar e de ter iniciativa, a sua simples missão é de controlar as massas (em duplo sentido) assegurando que onde umas se abespinham, outras mantêm a orquestra a tocar.

Este é o preço que andamos a pagar numa região governada há 20 anos por um mesmo poder, perdido no seu labirinto de razões e de verdades absolutas.

E enquanto não forem os açorianos a querer um tempo novo, não podemos esperar melhor daqueles que só conhecem o tempo que está velho. Gastos nas ideias, usados nos procedimentos, repetentes nos erros e persistentes na teimosia. A nossa sociedade começa a sufocar com tanta verdade formatada ao sabor dos interesses políticos. Não se pode levar uma Região ao progresso quando o manto do poder é inquestionável, inultrapassável e insondável.

E se a isso se somam escolhas infelizes de pessoas que saltitam de cargo em cargo, apenas porque sim, porque não têm mais nada que fazer e porque sabem coisas deste, daquela e do outro e não se pode deixar de ajudar quem é chegado e não se quer inconveniente.

Ainda assim, e sem ser munidos de um super-poder, há aqueles que são a excepção que confirma a regra. Como seria bom que outros mais pudessem ter diferentes oportunidades, muitas que ficam pelo caminho da falta de senso de um qualquer missionário do poder.

Este estrangulamento do pensamento e da livre iniciativa começa a pesar em demasia nos Açores do nosso tempo, mas já vai transpirando alguma ânsia pelo fim deste sistema, mesmo que isso possa ser censurável por quem se julga acima da perfeição.

E como têm sempre razão e não cometem erros, provavelmente só se darão conta do final de festa quando já só existirem as cinzas.