A procissão só vai no adro… – Opinião de António Marinho
Publicado em 17 de Fevereiro, 2016

Já se sabia que o Orçamento de Estado de 2016 seria o primeiro, e talvez o mais esperado, “momento da verdade”. Um teste evidente quanto à firmeza da coligação negativa que levou Costa ao poder. A par com esse, contudo, têm vindo a acrescentar-se outros momentos que merecem reflexão, já que patenteiam eventuais focos de desentendimento que podem estar a atentar contra a saúde do governo. E, pior, contra o futuro do país.

Ainda é prematuro falar do desfecho que ocorrerá aquando da votação do orçamento para o presente ano. Mas têm vindo a evidenciar-se muitas situações de desconforto por parte dos partidos da esquerda radical. Aqueles que “socorreram” Costa da possível entrega do poder dentro do seu partido, quando não conseguiu, como o seu antecessor, ganhar eleições, ainda que fosse por poucochinho.

Até agora são apenas conhecidas envergonhadas reações negativas dos “radicais” aos aumentos dos impostos anunciados e ampliados ao longo da triste novela mexicana em que se transformou a apresentação do orçamento. É óbvia a intenção de tentarem salvar a sua face. Lá vão dizendo que discordam, atirando uma pequena pedra ao governo que ajudaram a criar. Pequena, porque, ao mesmo tempo, e embora de forma pouco coerente, dizem que são capazes de viabilizar os aumentos que afirmam merecer a sua discordância.

A machucar um pouco mais a firmeza da coligação negativa veio agora juntar-se o negócio que o governo “desfez” em relação à TAP. Aí, o desentendimento é mais forte. Para os radicais, os socialistas alinharam com a direita e não foram suficientemente duros. Como aconteceria com uma certa esquerda que se preze, onde eles, ao que parece, entendem situar-se. É mais uma pedrada atirada ao governo que dizem suportar, desta vez revelando atritos mais evidentes entre os “apoiantes” de um governo que ainda se encontra em fase de “engatinhar”.

Mas os desentendimentos não parecem reduzir-se ao que resulta da amálgama ideológica que suporta o governo de Costa. Na semana passada, conheceram-se outros. Desta vez entre membros do próprio governo. Especialmente graves porque se concentraram nas duas figuras que deveriam estar completamente alinhadas no momento em que se discute o Orçamento, o documento mais importante para a governação.

Então não é que Costa e Centeno se andam a desmentir mutuamente? É em relação à data entrada em vigor das célebres 35 horas para a função pública. É um a dizer que medidas adicionais não serão necessárias para responder às exigências de Bruxelas e o outro a afirmar que tais medidas estão a ser preparadas. Ou seja, um plano B que poderá intensificar a austeridade que inicialmente diziam que ia ser colocada de lado. Intensificação que, como é óbvio, irá acentuar os desentendimentos com a esquerda radical.

E assim vamos assistindo à reação negativa dos mercados. Já levaram os juros da dívida portuguesa para níveis que já não se atingiam há muito. Os mesmos que o governo anterior tinha conseguido baixar para níveis aceitáveis.

Andam desentendidos? É lá com eles. O pior são os efeitos negativos que daí resultam para todos nós.

E só agora é isto que está a começar …