Ano novo com velhas preocupações – Opinião de Luís Garcia
Publicado em 14 de Janeiro, 2016

1. O fim e o início de um ano é sempre um período propício para avaliar e para abrir novos caminhos. Se essa avaliação é importante nas nossas vidas particulares, ela constitui, ou devia constituir, um imperativo na nossa vida coletiva e para quem exerce funções públicas. É isso que me proponho fazer hoje neste espaço: o meu balanço sobre aquilo que, na minha perspetiva, de mais significativo aconteceu no Faial no ano de 2015.

2. Há cerca de um ano escrevi neste jornal que “as novas obrigações de serviço público no transporte aéreo entre os Açores e o Continente mereceram destaque em 2014 mas marcarão seguramente 2015 e os anos seguintes. Ao contrário de muitos, não tenho feito festa antecipada à volta deste assunto, preferindo esperar para ver. Não deixo de reconhecer aspetos positivos neste novo modelo, desde logo a diminuição do preço das passagens, mas existem ainda muitas dúvidas por esclarecer e muitos aspetos que necessitam de ser salvaguardados”.

Infelizmente, em muitos aspetos, o tempo veio dar-me razão: o ano de 2015 fica indelevelmente marcado por um retrocesso nas acessibilidades aéreas de e para o Faial. Com o início do novo modelo de transportes aéreos entre os Açores e Portugal Continental e com o consequente abandono inaceitável da TAP desta rota, o Faial foi a única ilha que objetivamente perdeu ligações diretas a Lisboa. Para além dos constrangimentos verificados nas ligações com Lisboa, os faialenses também sentiram dificuldades nas ligações inter-ilhas e na exportação dos nossos produtos. Especialmente no Verão sentimos, como há muito não sentíamos, tantas dificuldades para sair ou para vir ao Faial. A SATA foi um obstáculo ao nosso desenvolvimento e à nossa mobilidade em 2015. Só espero que estes constrangimentos não se voltem a repetir em 2016.

Estes acontecimentos e alguns anúncios feitos em relação às acessibilidades aéreas ao Triângulo também provaram que a atitude correta não é ficar expetante, como alguns defenderam, mas sim fazer o nosso trabalho de casa e agir.

3. O ano de 2015 também confirmou que a austeridade cega e irracional aplicada pelo Governo Regional e pelo PS no Serviço Regional de Saúde (SRS) tornou o acesso dos açorianos à saúde mais caro e mais difícil. O quadro de especialistas do nosso hospital continua a esvaziar-se colocando mesmo em causa o seu futuro. A deslocação de especialistas foi dificultada, sendo em alguns casos cada vez mais espaçada e em outras especialidades deixou mesmo de se verificar. O ano transato também ficou marcado, ao nível da saúde, na nossa ilha, por uma partidarização assumida e sem precedentes por parte das administrações nomeadas.

4. Ao nível da economia do mar onde a Horta tem tradição e enormes potencialidades há também decisões, ou a falta delas, que marcaram o ano passado. Uma boa notícia foi o anúncio do lançamento do concurso para a primeira fase das obras da Escola do Mar. Esse anúncio foi feito há meio ano, todavia desconheço, nesta data, os seus desenvolvimentos.

Contudo, há neste domínio outras decisões que não são nada positivas para esta ilha. Entre elas destaco a decisão da Universidade dos Açores (UA) de abrir uma licenciatura em ciências do mar em Ponta Delgada e não no Departamento de Oceanografia e Pescas. Aliás, 2015 não trouxe muito de positivo para o DOP. A precaridade e a instabilidade que se vivem naquele departamento são uma injustiça em relação à qualidade do trabalho nele realizado e constituem um contrassenso com a apregoada aposta no mar que nunca será bem sucedida sem conhecimento científico. A recente decisão da UA de se reestruturar em quatro faculdades também não vai aparentemente no sentido de valorizar devidamente este departamento.

Ainda neste domínio os inúmeros cancelamentos em 2015, confirmaram as fundadas dúvidas sobre a capacidade do novo cais do porto da Horta para o turismo de navios de cruzeiro.

O adiamento da segunda fase de reordenamento do porto (apesar de ter verbas inscritas no plano de 2015) que trará melhores condições para o setor das pescas, para as empresas marítimo turísticas, para o Clube Naval e para a reparação naval, também não é positivo.

5. Outra decisão perniciosa para o Faial e que marcou 2015 foi o cancelamento da construção da segunda fase da variante à cidade da Horta. É um pequeno troço de estrada mas que tem óbvias implicações com outros investimentos públicos, tais como o reordenamento da Frente Mar da cidade da Horta, a construção do novo Quartel dos Bombeiros e o reordenamento do trânsito na cidade. Ainda está por explicar para onde irá o trânsito que se quer retirar da cidade!

6. Em 2016 os faialenses terão a oportunidade de avaliar todas estas e outras decisões desta governação de 20 anos que vem prejudicando o Faial. Espero que o queixume e a reclamação que tanto ouvimos sobre o futuro do Faial tenham consequência na escolha de outros caminhos. Que todos assumam com responsabilidade a tarefa de em democracia escolher e optar. E que todos tomem consciência que essas escolhas e opções têm consequências.

Um bom ano de 2016 para cada um e para o Faial.