Abstenções e desculpas – Opinião de João Bruto da Costa
Publicado em 27 de Janeiro, 2016

No Domingo passado foi eleito o novo Presidente da República.

Marcelo Rebelo de Sousa ganhou e nos Açores conseguiu mesmo ganhar em todas as freguesias!

Era uma vitória esperada numa eleição sem candidatos que ombreassem com o professor.

Talvez esse factor tenha contribuído para a elevada abstenção; muitos terão pensado que o seu voto não faria diferença, ora porque um candidato iria ganhar folgadamente, ora porque não tinham candidato alternativo.

Seja como for, é preocupante que mais de metade dos açorianos tenham optado por deixar para os outros a escolha do mais alto magistrado da nação.

A questão da abstenção elevada tem vindo a ser discutida há vários actos eleitorais sem que apareçam consensos sobre a oportunidade de mudar as leis eleitorais ou de encontrar forma de entusiasmar o voto nas diferentes eleições, a que se somam cadernos eleitorais repletos de não eleitores.

É antiga a preocupação com a ausência de eleitores no acto eleitoral e não podemos deixar de alertar para a falta de saúde de uma democracia que deixa nas mãos da inércia o direito de escolha dos cidadãos.

Na noite eleitoral, as reacções aos resultados têm sempre aspectos que nos fazem pensar se não será por se olhar para os raciocínios de desculpabilização de uns e de culpabilização de outros que leva, por vezes, a concluir que as razões de tão elevada abstenção podem estar mesmo à frente dos nossos olhos.

Se repararmos nas razões de alguns para o seu mau resultado eleitoral, damos connosco a pensar se aquelas pessoas acreditam mesmo no que estão a dizer ou se não se lembraram de mais nada para tentar camuflar a falta de apoio dos seus candidatos ou das suas candidaturas.

Ouvi, por exemplo, um mandatário da candidatura apoiada pelo Partido Comunista a justificar o mau resultado do seu candidato por este ser pouco conhecido e a tentar comprovar essa tese dizendo que, na Madeira, de onde veio o candidato comunista, ele até teve a segunda melhor votação, ultrapassando os restantes derrotados.

Mas se isso fosse válido para justificar o mau resultado regional, também o candidato Tino de Rans podia dizer que era pouco conhecido no país, pois a ver pelo seu segundo lugar em Penafiel, de onde é natural, até podia ser o candidato mais votado logo atrás de Marcelo. Note-se, como curiosidade, que nos Açores o candidato Tino de Rans teve mais 60% dos votos do que o candidato comunista e não foi por o mesmo ter feito campanha por cá pois, ao contrário do candidato do PCP, Tino nem sequer veio à região.

Num outro extremo, os apoiantes do candidato Sampaio da Nóvoa tudo fizeram para não aparecer e, aparecendo uma mandatária a sugerir que o seu candidato não tinha ganho por culpa, imagine-se, de Cavaco Silva, percebemos o descontrole para aqueles que pensavam que numa segunda volta juntavam novamente os votos dos derrotados para eleger quem os portugueses chumbavam.

Não deixa de ser notável o eclipse mediático dos poderosos socialistas açorianos, todos eles tendo apelado ao voto no candidato derrotado. Desapareceram das fotografias da noite eleitoral, tendo a jornalista de serviço andado à procura nos corredores de um hotel para encontrar de sorriso amarelo o presidente reeleito do PS/Açores a dizer que está tudo bem, porque amanhã já não se fala mais nisso.

De resto, sabendo nós que se tivessem conseguido os seus objectivos se acotovelariam para aparecer em frente às televisões a gabar-se da sua boa influência, acabaram a abster-se de assumir responsabilidades.