A ver navios… – Opinião de Luís Garcia
Publicado em 16 de Dezembro, 2015

1. Mais uma vez o Faial ficou literalmente a ver navios! Mais uma vez um cruzeiro de turistas cancelou a sua escala no porto da Horta. Foi só mais uma! No passado dia 8, todos aguardávamos que o “Queen Elizabeth” escalasse o nosso porto, mas surpreendentemente, ou talvez não, o navio cancelou a sua operação aqui optando por escalar o porto da Praia da Vitória. A razão apontada para esta alteração foi a previsão de tempo. Curiosamente se a previsão de tempo era má não se concretizou, pois naquele dia o tempo esteve espetacular.

Mas se as previsões climatéricas menos boas se concretizassem o navio não podia operar no porto da Horta?! Isso parece-me estranho, neste e em outros cancelamentos em que se tem invocado a mesma justificação, porque, pelo tempo fora, sempre foram conhecidas e elogiadas as excelentes condições de abrigo e de operacionalidade do porto da Horta. Por isso, não deixa de causar estranheza que um dos melhores e mais abrigados portos dos Açores, de um momento para outro, se tenha tornado inseguro…

2. A verdadeira razão que está subjacente aos inúmeros cancelamentos de navios de cruzeiro que se tem verificado no nosso porto é outra e precisa ser sempre recordada: a opção política errada de encurtar o novo cais.

Recordemos que em 19 de Junho de 2008, o ex-secretário regional da Economia, Duarte Ponte, afirmava que o governo regional iria lançar em breve um concurso público “a fim de criar novas condições para receção de navios de cruzeiros” no porto da Horta e que neste porto “será criado um cais para cruzeiros com cerca de 400 metros de comprimento e à profundidade de menos 12 metros”, cuja maqueta, aliás, foi apresentada ao público durante a Semana do Mar.

Pouco tempo decorrido sobre estas declarações e sobre a apresentação pública de tal projeto, o mesmo foi profundamente alterado, tendo sido reduzido, passando-se para um cais de cerca de 280 metros e à profundidade de menos 6 metros de calado, que entretanto, já em obra, foi alterado para menos 8 metros.

O navio “Queen Elizabeth”, que pretendia escalar o nosso porto no dia 8 de dezembro, tinha 294 metros de comprimento, 32 metros de boca e 8 metros de calado, logo não podia atracar no novo cais. Teria de ficar fundeado, à semelhança de muitos outros, fora do porto com todas as consequências que a instabilidade climatérica pode acarretar e assim optou por outras paragens.

3. A verdade é que mais uma vez o Faial e a sua economia ficaram a perder. A verdade é que mais uma vez ficou bem patente que aquele “cais da ribeira”, como muitos o designam, nasceu atrofiado e não correspondeu às reais necessidades e expectativas dos Faialenses. E a verdade é que muitos conhecedores do mar e do nosso porto afirmam que, para além de não permitir a operação de grandes navios de turistas, aquela infraestrutura trouxe, com determinadas ondulações, implicações negativas na operacionalidade da bacia sul do porto.

Assim, parece-me óbvio que este e outros navios de cruzeiro não operam no novo cais do nosso porto porque pura e simplesmente o Governo Regional, que o mandou projetar e executar, não quis que ele ficasse preparado para este tipo de navios, optando por criar essas condições em outras parcelas da Região. O resultado dessa opção política está aí à vista de todos para quem quiser ver. Podemos encontrar justificações para este ou para todos os cancelamentos que temos assistido, mas é nesta opção política errada que reside a verdadeira causa para tudo isso.

De desculpa em desculpa, a verdade é que, apesar de derramados quase 50 milhões de euros na nossa bela baía, muitos navios de cruzeiros não conseguem lá atracar. E pior do que isso: mais uma vez um investimento que devia ser estruturante e de futuro penaliza o progresso do Faial devido às más decisões políticas dos governos do Partido Socialista. Mais uma vez ficámos “a ver navios”…

Nesta quadra festiva desejo a todos um Santo e Feliz Natal.