Um governo a fingir – Opinião de António Marinho
Publicado em 09 de Dezembro, 2015

Três derrotados somados não dão um vencedor. Alguém o dizia quando os socialistas quiseram abeirar-se, a qualquer custo, do poder que tanta falta lhes parece fazer. Provavelmente, para se satisfazerem a si próprios e às clientelas que normalmente gravitam à sua volta.

A verdade é que a solução engendrada dava jeito aos rostos da derrota de 4 de Outubro. Era a sua carreira política que sofria um forte revés e fingir que nada tinha acontecido vinha mesmo a calhar.

A partir daí, foi um ver se te avias. O fingimento passou a dominar a agenda socialista.

Fingiram, desde logo, que tinham ganho as eleições, somando os seus votos aos de outros perdedores. Ou seja, fingiram que três derrotados dão mesmo um vencedor.

Fingiram que o que tinha acontecido durante quarenta anos não era coisa a que se pudesse ligar. Mandaram às malvas a tradição e o entendimento que tinha sido conseguido durante os anos de democracia em Portugal.

Fingiram que falaram com todos os partidos com assento parlamentar, mas a verdade é que em relação a quem tinha ganho as eleições apenas tomaram assento em reuniões para constar. Não tentaram construir sequer uma página de um qualquer documento que pudesse sublinhar eventuais pontos de entendimento.

Fingiram que falaram com a extrema-esquerda radical, percebendo-se agora que era apenas para que todos fingissem em uníssono que havia pontos de partida que iriam fundamentar uma solução estável de governo. No fundo, o que não queriam mesmo era colocar em confronto as questões, não só ideológicas, que os afastaram desde sempre.

A partir daí, fingiram todos em conjunto.

Fingiram que tinham chegado a um acordo de governo. Mas soube-se depois que o que existia eram três acordos bilaterais, cada um a puxar para aquilo que mais lhe interessava, não dando garantias mínimas para a estabilidade de que Portugal tanto necessita.

Fingiram que estavam na disposição de cumprir os acordos que o país tem em relação às instâncias internacionais e europeias. Mas sabe-se que desses pontos de vista há diferenças de peso e notórias entre os socialistas e os partidos radicais que fingiram estar com o governo que se formou.

Se fosse pedido a cada um dos três fingidores que fingem estar com esta solução de governo, a respetiva posição face à NATO, ou em relação ao Tratado Orçamental da União Europeia, ou quando à União Económica e Monetária, ou qualquer outra matéria semelhante, haveria uma posição única? Ou haveria duas, a dos socialistas e a dos outros? Ou haveria mesmo três?

De fingimento em fingimento, temos um governo que reúne a avidez socialista pelo poder ao interessezinho, se calhar fingido, da esquerda radical. Faz-nos lembrar o período gonçalvista, de que felizmente são já poucos os que se recordam.

Nem por acaso, durante este período de fingimento passaram quarenta anos sobre o 25 de Novembro de 1975. O dia em que se pôs fim ao gonçalvismo. Quando os socialistas estavam do lado oposto àquele em que agora se encontram.

Esperemos é que este fingimento não faça mal a Portugal. Para mal, já basta o que os socialistas fizeram até 2011, quando não precisaram de fingir para governar.