A moda do “perde-ganha” – Opinião de Cláudio Lopes
Publicado em 29 de Dezembro, 2015

Recordo-me de, na minha adolescência, jogar às “Damas”. Mas havia um outro jogo, chamava-se o “Perde-ganha”. A estratégia para este jogo era raciocinar exatamente ao contrário do jogo das “Damas”.

Transferindo para o exercício da nossa Democracia as táticas relativas aos dois jogos, concluímos que o jogo das “Damas” corresponde ao exercício democrático normal e o jogo do “Perde-ganha” passou a ser o jogo preferido dos partidos derrotados nas urnas.

Decorridos que estão quase 40 anos de vigência de um regime democrático em Portugal, em que os portugueses se habituaram a ir às urnas escolher o Governo que queriam, de forma livre e inequívoca, e em que os partidos vitoriosos formavam Governo, eis que um grande equívoco se instalou nas bases deste sistema. O Governo que a maioria dos eleitores escolhe já não é garantido que seja o Governo que venha a governar.

Em Portugal, esta nova modalidade foi inaugurada pelos socialistas, após as últimas eleições legislativas.

Agora em Espanha, equaciona-se a hipótese de o mesmo vir a suceder. A não ser que os socialistas espanhóis sejam, politicamente, mais inteligentes, do que os socialistas portugueses. Ou, pelo menos, menos gananciosos pelo poder.

Hoje, dia em que escrevo este modesto escrito, aconteceu uma situação bizarra. O Governo socialista que afirmava não precisar da coligação da direita PSD-CDS para aprovar as suas medidas (pois gozava do conforto parlamentar do PCP e do BE), logo no primeiro momento em que necessitou de aprovar um orçamento retificativo, viu negado o apoio desses partidos de esquerda e necessitou do apoio do PSD para o viabilizar. Ironia do destino. Este será o primeiro obstáculo do difícil caminho que o Governo de António Costa escolheu percorrer.

Como diz o nosso povo, “isto é tudo muito bonito, o problema é quando a porca torce o rabo”.

Esta forma de constituir Governos é, no mínimo, estranha e incoerente. O certo é que ela é permitida pela Constituição. Por isso é imperioso rever a Constituição e acabar assim com essas incoerências.

Um dos grandes males da nossa Democracia é o do abstencionismo dos cidadãos eleitores no cumprimento do seu dever cívico, o de votar e de escolher em liberdade os seus governantes.

Estas soluções/expedientes que agora os socialistas passaram a usar para chegar ao Poder, não credibilizam nada a classe política, não prestigiam a democracia e afastam cada vez mais os eleitores das urnas.

O grande problema é que estas soluções começam a “fazer escola”.

Há dias, falava com um professor de uma Escola Secundária da nossa ilha, e ele contava-me esta passagem:

«Na tal Escola, houve, recentemente, eleições para a Associação de estudantes. Concorreram três listas. Uma delas saiu vencedora, como é natural. O professor, que atrás referi, responsável pelo acompanhamento do processo eleitoral, confessou-me que ficou surpreendido quando, após o ato eleitoral, foi abordado pelos representantes das duas listas vencidas nestas eleições que o questionaram nos seguintes termos: Professor, então e agora? Será que se nós juntarmos os votos das duas listas também podemos vir a liderar a Associação de estudantes?! A questão é que os miúdos estavam a levar a coisa a sério, não era mera brincadeira, afirmou-me o professor».

A Democracia tem de acabar rapidamente com este jogo do “perde-ganha”, para bem da credibilização do próprio sistema democrático.