A conversa de Vasco Cordeiro – Opinião de João Bruto da Costa
Publicado em 02 de Dezembro, 2015

No encerramento do debate sobre o Plano Anual e Orçamento para 2016, o Presidente do Governo, Vasco Cordeiro, exaltou a habilidade para o diálogo do seu Governo.

De sorriso teatralizado, Vasco Cordeiro fitou as câmaras de televisão e declarou solenemente que o seu Plano e Orçamento não eram só do Governo mas, imagine-se, de todos quantos tinham sido escutados pelos dirigentes socialistas.

Até aqui nada de mal se poderia apontar a Vasco Cordeiro e aos documentos que o PS aprovava sozinho, tirando a encenação discursiva de um político já com vinte anos de convivência com o poder.

Mas a realidade vai muito para além dos bonitos discursos e dos sorrisos encenados de Vasco Cordeiro e dos seus companheiros de governo. E essa realidade teima em desmentir a consequência do tal diálogo com a sociedade civil, as organizações de classe ou os restantes partidos políticos.

Se, por via do teatro parlamentar de Vasco Cordeiro, podíamos ser levados a concluir que os anseios, reivindicações e sugestões de todos quantos dialogaram com o Governo Regional originaram os documentos aprovados pelo Partido Socialista, a verdade é que nada disso aconteceu na dimensão que Vasco Cordeiro corporizou com o seu teatral discurso parlamentar.

E se, para que conste, algumas propostas vieram a ser consagradas no Plano Anual e Orçamento para 2016, o voto de reprovação unânime da oposição parlamentar comprova que também no acolhimento de uma ou outra proposta está subjacente uma grande dose de hipocrisia política destinada, apenas, a confortar o discurso do líder socialista.

Se atentarmos aos pareceres dos Conselhos de Ilha, às preocupações e reivindicações de agricultores, pescadores, sindicatos e empresários, e depois fizermos o deve e haver das suas propostas, nos documentos finais aprovados pelo Partido Socialista, percebemos que o diálogo glorificado por Vasco Cordeiro foi, afinal, uma desobriga sem consequências práticas e que, para o Presidente do Governo Regional, dialogar chega para os seus intentos discursivos mas não significa dar expressão ao que lhe é dito com quem troca impressões sobre os assuntos em cima da mesa.

E por ser assim, somos forçados a concluir que dialogar é, para Vasco Cordeiro, apenas conversa sem expressão prática e que, por mais que lhe digam sobre a importância de muitos assuntos relevantes para o futuro dos Açores, as ideias feitas do PS e do Governo Regional Socialista sobre o que deve ou não constar dos seus documentos programáticos em nada são alteradas, mesmo que isso resulte do que lhe dizem aqueles com quem dialogam.

As consequências desta forma de fazer passar uma ideia que só formalmente corresponde à verdade costuma resultar apenas em demagogia, que seria barata não fosse o preço elevado que terá para uma região penalizada por problemas que resultam de um governo cheio de velhos vícios de exercício de poder, há já vinte anos.

A expressão prática desta demagogia e desta exaltação de conversas que não resultaram em acções concretas é o voto de reprovação dos documentos do Governo Regional por parte de toda a oposição.

Vasco Cordeiro deveria perceber que não é por forçar um sorriso para açoriano ver ou por declarar que dialoga com todos que fica automaticamente consagrado na sua função presidencial.

Não ter entendido que não é só por cumprir com o protocolo que fica isento de dar consequência às formalidades levou a que ficasse a falar sozinho.

Vinte anos de poder é muito tempo. A prova está à vista!