De repente – Opinião de António Marinho
Publicado em 21 de Outubro, 2015

De repente, Costa e César tentaram fazer esquecer que tinham apeado Seguro, que até tinha vencido as eleições europeias. E todos se lembram que a justificação dessa “maldade” era a de que tinha sido uma vitória por “poucochinho”.

De repente, agora, depois de não terem vencido, e tendo até averbado uma derrota que não foi por tão “poucochinho” assim, não tiveram a hombridade de agir como a “gente grande” da política. Mantiveram-se, se calhar sem pedra nem cal, e partiram para a construção de uma farsa.

De repente, mandaram às malvas uma prática de quarenta anos. A que assenta num facto óbvio para os democratas: a formação do governo cabe à força política que venceu as eleições.

De repente, até contrariaram as lições do seu todo-amado Soares, quando impediu, como Presidente da República, o que outro socialista também queria em 1985. Perverter os resultados eleitorais e avançar para um governo em que o dito socialista se juntava a outros para, juntos, terem “mais” do que o partido que então vencera as eleições. Tal como eles agora querem.

De repente, nem tiveram vergonha da incoerência levada ao seu mais alto grau, quando defenderam o contrário do que o próprio César tinha defendido em 1996. Na altura em que chegou ao governo e em que até tinha o mesmo número de deputados que o segundo partido mais votado.

De repente, tentaram mostrar que eram gente séria e partiram para um conjunto de negociações. Mas desde logo se viu que a honestidade não é para eles um valor de referência em política, dado o manifesto desinteresse, a roçar o enfado, bem como os truques baixos, jigajogas e até mentiras, que têm rodeado os encontros mantidos com quem venceu as eleições.

De repente, ficou claro que a “menina” dos amores de ambos era a esquerda de protesto. Porque permitia um cenário batoteiro como o que, a título jocoso, apareceu nas redes sociais, em tempo de apuramento para o Euro de futebol: Portugal ficaria afastado da fase final no caso de as três seleções da parte de baixo da tabela juntarem os seus pontos.

De repente, percebeu-se que essa era a forma de Costa poder ser primeiro-ministro, tendo perdido as eleições. E de o primeiro amanuense César, co-responsável pela derrota, poder ter um daqueles lugarinhos pelos quais tanto anseia desde há três anos.

De repente, até se viu César chamar arrogante ao primeiro-ministro. Provavelmente mandatado por Costa para essa tarefa, que terá preferido não se expor pelo facto de se ter vindo a especializar nessa postura perante quem o confronta, com a comunicação social como alvo preferencial da sua ira. Só que a escolha do protagonista foi, no mínimo, risível. Logo foi recair sobre quem sempre passeou a arrogância com traje de gala ao longo dos anos.

De repente, Catarina e Jerónimo andam a rir-se às escondidas.

De repente, Seguro ainda mantém a sucessão de gargalhadas que iniciou na noite de 4 de Outubro.

De repente, derrotados, Costa e César só querem mesmo é salvar a sua pele. E mostram-se como “gente pequenina” da política.

Não era bom que, de repente, começassem a pensar no país e no esforço feito pelos portugueses nos últimos quatro anos?