A estratégia de uns e a apatia de outros – Opinião de Luís Garcia
Publicado em 13 de Outubro, 2015

1. O Faial tem assistido a um verdadeiro retrocesso nas acessibilidades aéreas. Começou pelo abandono inesperado e incompreensível da TAP. A SATA Internacional, que substituiu a TAP nesta rota, não foi capaz de disponibilizar um número de lugares que respondesse satisfatoriamente à necessária mobilidade de quem aqui vive e ao aumento do número de turistas.

Acresceu a todos estes constrangimentos a falta de lugares nos voos inter-ilhas. E como se não bastasse, agora são os horários de inverno ao fim-de-semana que atrofiam por completo a nossa mobilidade. Reduzir o número de voos inter-ilhas, de e para o Faial, ao sábado e ao domingo, a um por dia é um retrocesso absolutamente impensável e inaceitável, com a agravante desse voo ser de manhã e de se utilizar o avião mais pequeno num dos dias.

Para além disso, esta redução de voos é absolutamente contraditória com as expetativas criadas com o dito novo modelo de transportes aéreos. Dizem-nos que vamos receber mais turistas tirando partido dos reencaminhamentos gratuitos fruto desse modelo e depois reduzem-nos o número de voos. Alguém entende isto?

Confrontado com esta contestação do Faial o Secretário Regional do Turismo e Transportes tem a distinta lata de dizer que se houver procura a SATA tem capacidade de aumentar a oferta. Alguém, algum dia, vai organizar a sua vida pensando que a SATA vai aumentar a oferta?

Algum turista programará a sua vinda ao Faial esperando que nas vésperas a SATA anuncie uma viagem extraordinária?!

2. É evidente que temos de lutar para que estes horários de inverno especialmente ao fim-de-semana sejam alterados. Mas teremos igualmente de perceber se todos estes constrangimentos provocados pelos transportes aéreos de e para o Faial têm ou não subjacente alguma estratégia. E na minha opinião tem. Existe quem esteja interessado em criar problemas ao desenvolvimento do Faial. A SATA é um mero instrumento dessa estratégia montada por um conjunto de interesses que têm elementos bem colocados na estrutura orgânica do Governo Regional.

Os mesmos de sempre não deixam que a SATA Internacional aumente a sua oferta de lugares para o Faial porque têm medo do crescimento turístico do Triângulo.

Os mesmos de sempre não deixam que a SATA disponibilize mais lugares nos voos inter-ilhas para esta zona do arquipélago porque sabem que a maioria dos turistas que entram nos Açores por São Miguel e que pretendem usufruir dos reencaminhamentos gratuitos querem preferencialmente vir às ilhas do Triângulo.

Os mesmos de sempre querem reduzir as ligações da Horta ao Grupo Ocidental (uma ligação que agora desaparece ao fim-de-semana e que ligava a Horta às Flores) trocando-as por ligações diretas de Ponta Delgada e da Terceira, sabem que desta forma desviam pessoas do Faial, desde logo, prejudicando as acessibilidades das gentes daquelas ilhas ao Hospital da Horta. Nada disto acontece por acaso!

3. A propósito de estratégias, não resisto a comentar uma reunião que o Conselho de Administração do Hospital de Angra promoveu na semana passada e que juntou as Administrações das Unidades de Saúde da Terceira, S. Jorge, Graciosa e curiosamente do Pico, para criar um plano para melhorar as deslocações de médicos especialistas e de utentes. Dirão alguns – os mesmos de sempre de cá e de lá – que estou a ver fantasmas onde eles não existem.

O que vou constatando é que há muito que está em curso uma estratégia para desmantelar o lugar que ao Hospital da Horta cabe no Serviço Regional de Saúde e sinto que esta ação pode ser mais uma peça dessa estratégia. Nunca esqueço que quando o Hospital de Angra foi projetado dizia-se que era para servir sete ilhas (as do Grupo Central e Ocidental) e para lá caminha. Senão, reparem nas declarações da Presidente do Conselho Administração daquela unidade hospitalar a propósito desta reunião: “estamos a trabalhar para mantermos a nossa centralidade. Somos uma equipa que defende o desenvolvimento do nosso hospital”.

Enquanto o Hospital de Angra reforça a sua presença e a deslocação de especialistas, por cá existem responsáveis do nosso Hospital que afirmam para quem os quiser ouvir que só precisamos de duas “especialidades mães”: cirurgia geral e medicina interna. E dizem isto, enquanto há doentes abandonados que aguardam há longos meses pelas suas consultas com os médicos especialistas que os acompanhavam.

Havemos de colher os frutos desta estratégia suicida.

4. Ainda no âmbito das acessibilidades aéreas à nossa ilha felicito a Câmara de Comércio e Indústria da Horta por ter conseguido incluir nas conclusões do “Fórum da Câmara de Comércio e Indústria dos Açores 2015” a necessidade de melhoramentos na “operacionalização/ampliação do aeroporto da Horta”, identificando esta situação como um constrangimento estrutural que requer “atenção imediata para o planeamento da sua resolução”. É positivo ver este constrangimento e esta necessidade reconhecida pelas estruturas representativas dos empresários dos Açores.

Este reconhecimento pode ser um contributo para que o Governo Regional se convença, de uma vez por todas, que tem de ser parte ativa neste investimento. E, por isso, não posso deixar de registar, com alguma preocupação, que a ampliação da pista do aeroporto da Horta não tenha sido tema na recente campanha eleitoral…