Visitas e visitados – Opinião de João Bruto da Costa
Publicado em 02 de Setembro, 2015

A primeira vez que fiz um artigo de opinião sobre questões da política na ilha Graciosa abordei o tema do modelo de visitas estatutárias que o socialismo açoriano enraizou nos Açores e que em muitos aspectos mais se assemelham a passeios dos senhores feudais pelas terras do seu dote distribuindo benesses e ouvindo os lamentos.

Naquele tempo – há mais de 10 anos, e já quase com outros 10 anos de Partido Socialista a governar a região – tive direito a uma espécie de resposta à minha opinião por parte do PS da Graciosa, já ao tempo também ele sempre preocupado em assumir uma posição de força perante quem se atrevesse a criticar o que quer que seja ao regime instalado no poder, a que se somava a extrema reverência àqueles senhores que estavam prestes a desembarcar na ilha e para quem se tinham limpado bermas de estrada, caiado muros e edifícios públicos, e procurado silenciar críticas ou não fossem eles, os anunciados visitantes, pensar que na ilha o seu poder não estava representado de forma eficiente.

De lá para cá a mentalidade do poder pouco ou nada mudou, é a mesma azáfama e modelo de visita. É a mesma rotina e o mesmo princípio. São os mesmos de sempre a abeirarem-se da mesa e das migalhas, e sem o pudor que até o tempo levou, são sempre os mesmos a saborear o tributo prestado com palmadinhas nas costas e gargalhadas de simpatia ou a alimentar o escárnio pela opinião diversa, a que se juntam muita hipocrisia e acotovelamentos.

Mais uma vez, o PS da Graciosa prepara-se para receber o seu Governo, e de entre o habitual reafirmar de promessas retomam-se, no final de mais uma legislatura, as promessas da legislatura anterior, e finalmente concretizam-se, para alguns tarde demais, alguns projetos de mais obra pública que a ilha ansiava ter tido quando foram prometidos há uma década.

Mas mesmo assim são motivo de orgulho para os reverentes do poder e, pasme-se, ainda vão provar que cumprem com o que se comprometeram, mesmo que com 10 anos de atraso!

Se bem que não se esperam primeiras pedras para projectos em que só os próprios beneficiários, mais uma horda de sempre concordantes e solícitos credores de ideias fantasiosas, acreditam, já se sabe que este será o ano da visita estatutária preparatória das próximas eleições regionais de 2016 e, portanto, lá irá saltar o caderninho de recados para desejos mais íntimos ou, simplesmente, para fazer sonhar alguém que, ingenuamente, ainda acredita que com esta governação se vai a algum lado.

Para mal dos nossos pecados, mesmo dos que não merecem penitência, também há quem com orgulhosa velhacaria ache que tem o dever de beneficiar de uma atenção do poder para desenrascar uma qualquer trapalhada ou um qualquer assunto que correu menos bem e que agora, em tempo de votos, vale tudo para mais um devaneio pois a política do betão ainda faz sonhar candidatos a qualquer coisa.

No final ficam os graciosenses, que da visita pouco se importam, pois já a conhecem muito bem e já sabem no que vai dar.

Já deu para ser ilha da coesão, que já ninguém sabe o que é e para que serve, já deu para ter planos de desenvolvimento de todos e mais algum sector da economia. É ilha reserva da Biosfera mas, enquanto continuar a ver-se mandada por um poder que vive na estratosfera, as visitas governamentais continuam dirigidas a um pequeno grupo que ora se senta na mesa do repasto, ora se incha com as migalhas que caem.