Disparos na “base” – Opinião de António Marinho
Publicado em 02 de Setembro, 2015

Eis parte de um texto de um destacado militante socialista, num jornal nacional, sobre as inúmeras situações que têm “ferido” António Costa neste Verão: “A verdade é que já não há pés para tantos tiros. E os pés são fundamentais para nos mantermos na vertical, com a coluna direita, e para fazermos os caminhos necessários para o país.”

Quer então dizer que este militante entende que o seu líder já não tem “pés” para se conseguir manter com a “coluna direita”. Se isso fosse entendido na acepção estrita das palavras, deveria preocupar apenas Costa, no zelo que certamente dedica à sua saúde. Mas não é assim. É o sentido figurativo que está associado à expressão. E Costa é candidato a primeiro-ministro. Como tal, não é possível conciliar um pretendente a chefe do governo com alguém incapaz de se manter de “coluna direita”.

Mas o artigo tem uma afirmação adicional. Diz que a tal falta de “pés” não lhe permite fazer “os caminhos necessários para o país”. Ou seja, aquele militante acha taxativamente que Costa, o seu líder, não tem condições para conduzir os destinos da governação.

A verdade é que as situações de descontrole socialista se têm acumulado ao longo desta pré-campanha. E dão uma nota de impreparação de um partido que acha arrogantemente que as eleições “estão no papo”.

Arrogância que, aliás, sempre fez parte do ADN socialista. Como bem sabe quem pelos Açores acompanha a conduta dos socialistas ou quem tem memória sobre a postura de Sócrates ao longo do seu consulado como primeiro-ministro.

Nem a propósito. A presença indesejada de Sócrates ainda há dias se fez novamente sentir, de Évora para os jornais. Incomodou, pela enésima vez, o “apanhado” Costa.

Ou, também a propósito, César, com o “quero, posso e mando” que sempre foi seu timbre na política açoriana, também surge amiúde a “atropelar” Costa a propósito de tudo e de nada. Ao que se sabe, lançando a ira entre os socialistas de lá, que fazem sentir o seu desagrado com a incontrolável sede de César em “aparecer” nas pantalhas nacionais.

Devem ser estes os “tiros” de que fala o socialista que escreveu o tal artigo. E existem ainda outros.

Como terá sido o dado por Maria de Belém quando anunciou a sua candidatura presidencial ao mesmo tempo que Costa dizia que este era tempo de legislativas e não de presidenciais. “Apanhado” mais uma vez, desta feita em pleno directo num canal de notícias nacional.

Ou ainda o “tiro” dado com a infeliz história dos “cartazes”, em que foram usadas pessoas que não deram o seu acordo para o efeito.

Não sabemos se os “tiros” vão ou não ter efeito no resultado destas eleições.

Como não somos socialistas, não somos arrogantes para afirmar peremptoriamente quem vai ser o vencedor. É o povo que manda, ainda que haja quem o faça por esquecer.

E não iremos falar mais em “tiros”. Nem em “pés”. Vamos falar em “disparos na base”.

E dizemos, de forma convicta, que o problema nem é dos “disparos”. O que é mau para Portugal é a manifesta falta de “base” que Costa demonstra para assumir as rédeas da governação.

É isso que deve constituir um factor de peso para os eleitores no momento da decisão.