Assistencialismo socialista – Opinião de João Bruto da Costa
Publicado em 09 de Setembro, 2015

Ao cabo de duas décadas, e municiados por milhares de milhões de euros, as políticas de governação dos Açores tornaram-se num verdadeiro caso de estudo para quem desejar demonstrar o ciclo vicioso de pobreza e desigualdades sociais – de que se alimenta um poder baseado na dependência do Estado de largos estratos da população e das relações de domínio económico e social – promovidas pelo crescimento do sector empresarial regional e do seu peso na economia.

Sempre que ouvimos um qualquer elemento ligado ao partido que governa os Açores a falar de questões sociais já sabemos que se está a falar de quem destinou perpetuar baixos índices sociais como forma de garantir a possibilidade de demonstrar uma qualquer preocupação social.

Na verdade, sempre que um socialista dos Açores fala em questões sociais está a demonstrar o insucesso das duas décadas da mais pura realização de um governo socialista maioritário na Europa dos milhões e das contradições.

E isso sucede porque para um socialista dos Açores vinte anos de políticas sociais, destinadas elevar a Região a um estatuto de desenvolvimento humano condizente com os parâmetros médios europeus, significam apenas que é necessário manter os Açores nos piores indicadores sociais ou correm o risco de perder o apoio subjugado pela necessidade de se ser beneficiário dessas políticas sociais que encantam a retórica oficial.

É um verdadeiro ciclo vicioso, suportado pela incapacidade de perceber que o poder absoluto que se alimenta da dependência e do assistencialismo não sobrevive mais do que uma geração, porque ou a geração seguinte deixou o jugo e partiu à procura de melhor vida ou está cansada de ver a incompetência premiada pela bajulação descarada e imprudente!

Estamos perante uma realidade em que não se pode dizer que não há enormes necessidades sociais nos Açores, porque são os números que o demonstram. Ainda andamos em habitações degradadas, em falta de condições de habitabilidade e a discutir os mínimos da decência humana mas, ao mesmo tempo, temos palácios e zeladores, muitas empresas públicas com belíssimas condições para os respetivos gestores que, ainda por cima, assumem muitas vezes posições de força naquela que, supostamente, seria a livre concorrência, aniquilando mais umas possibilidades da sociedade sair em luta pelo seu crescimento, naquilo que resulta ser mais uma demonstração de que este é um regime e um sistema que interessa a alguém não mudar.

Em rigor, se olharmos friamente para o modelo implementado nos Açores temos puro assistencialismo em contraponto com políticas sociais libertadoras e potenciadoras de maior inclusão social e de menores resultados no que ao coeficiente de Gini, por exemplo, diz respeito. Não é equacionável que se tenham praticado boas políticas sociais e instalado um estado regional social de sucesso nos Açores e, ao mesmo tempo, mantido o mais elevado índice de pobreza e a maior diferença entre ricos e pobres de todo o Portugal.

É uma contradição nos termos e só pode significar que o poder socialista regional continua agarrado a premissas de poder assistencialista que, tentando parecer muito apropriado, continua a vender verdadeira banha da cobra no capítulo social, que aparenta muitas propriedades curativas mas, na realidade, serve unicamente para perpetuar dependências e submissões.

Ser-se lobo em pele de cordeiro em políticas sociais é a única justificação para, vinte anos depois, os Açores serem os campeões das necessidades para o desenvolvimento humano.