A vergonha… dos outros – Opinião de João Bruto da Costa
Publicado em 23 de Setembro, 2015

Perplexidade mas sem estupefação, como que num cenário obsceno que, em política, pode ser uma forma mais controlada de dizer “que falta vergonha na cara”, é como se pode olhar para o posicionamento, perante a história pública regional, do partido que governa os Açores vai para 20 anos, os seus líderes, os seus representantes e, não obstante, os que se candidatam em nome de uma espécie de ideal socialista mas que se resume àquele adágio popular: “quem não chora não mama”.

Constatar que por parte do poder público regional, corporizado nos governantes e executivos, nos representantes que se misturam entre a sociedade civil e suas organizações e o partido “com poder”, há uma frontal e determinada capacidade em dar a tal cara por projectos que cronologicamente se sucedem de falhanço em falhanço, e que se traduzem em repetir culpas alheias e tempestades perfeitas.

É uma obscenidade de primeiro escalão lembrar, por exemplo, depois dos milhões gastos em coisas como “vacodutos” na via rápida Angra-Praia na ilha Terceira – e não foi assim num passado tão remoto – apresentando essas despesas como o assegurar do “futuro” da lavoura terceirense, ignorando uma década de transformações nos modelos produtivos e nas esperadas consequências do anunciado fim das quotas, e agora vir “cramar” contra outros, que em nada beneficiaram com a festança de centenas de inaugurações a que se assistiu na grande relação entre o poder do voto e o gáudio de alguns dirigentes nestes Açores do Partido Socialista.

Quem não se lembra ainda (tirando os que agora querem esquecer) dos rios de dinheiro que jorraram em mastodontes de cimento por essa região fora, ou nos milhões em betuminoso para entradas e entradinhas, carretos de areia e paletes de cimento para muros e telheiros, fachadas e ombreiras, pátios e churrascos, pois a festa permite sempre a presença do oficial de serviço ao beija-mão do poder, desde que haja benefício mútuo.

E quem não se lembra de momentos eleitorais que correram de feição a quem detém o poder sempre antecedidos por uma boa sessão de lazer com bebida e comida para os mais carenciados, onde impera o deleite daqueles que, quando se fecha a torneira, cuidam de chamar o canalizador para o culpar da bilha estar vazia.

Momentos esses que hoje, de forma mesmo pornográfica em termos da falta de vergonha política, nada significaram para além de uma renovada promessa de que, um dia, também o povo poderá saborear o sucesso pessoal que tem dado a provar aos representantes do poder instalado e aos que estão instalados no poder.

São hoje muitos desses que renovam compromissos de que vão resolver tudo desde que – e há sempre um “desde que” – novamente se esqueça o número de vezes que já prometeram o mesmo e que, na hora da verdade, culpam os outros de nada se ter resolvido.

Somos capazes de ouvir algumas pessoas a culpar o atual governo de Passos pela desgraça económica da lavoura açoriana ou da crise instalada na ilha Terceira e, tal como perante quem diz obscenidades, acabamos por ser nós a corar de vergonha pois conforme se tem comprovado, os autores dos dislates que nos chocam permanecem impávidos e confiantes num papel que já conhecem bem demais.

Depois de duas décadas a ouvir os mesmos no mesmo papel, a falta de vergonha pode ter acabado para alguns mas estou certo de que a maioria ainda quererá ver os Açores a preocupar-se mais com os seus destinos e menos em culpar os outros.