Mau serviço ao Faial – Opinião de Luís Garcia
Publicado em 27 de Agosto, 2015

1. O que se está a passar com o transporte aéreo de e para o Faial é demasiado grave para ser verdade. Neste curto espaço de tempo em que vigora o novo modelo de transportes aéreos, a SATA está a revelar-se incapaz de corresponder aos desafios do tempo presente. Já não falo dos reencaminhamentos de turistas que o novo modelo potencialmente poderia trazer para esta e para outras ilhas e que não chegam cá porque não há lugares nos aviões.

Falo dos que cá vivem e que, por diversas razões da sua vida, precisam sair. Essa dificuldade sente-se nos voos inter-ilhas mas, sobretudo, nas saídas para Lisboa, para onde é quase impossível obter um lugar até meados de setembro. A SATA, cujo primeiro e principal objetivo deve ser o de promover a mobilidade dos açorianos, está neste tempo a dificulta-la; e, para além disso, cuida mal dos nossos emigrantes e não se mostra capaz de trazer mais turistas ao Faial.

Estes constrangimentos revelam incapacidade, falta de planeamento e especialmente uma ausência preocupante de estratégica por parte da administração da SATA e da sua tutela. Às dificuldades quando reagem fazem-no tarde e de forma atabalhoada com anúncios de voos extraordinários. Estes anúncios comprovam o quanto eram justas e acertadas as reivindicações da generalidade das forças vivas do Faial no início deste processo, desde logo, a de a SATA manter na rota entre a Horta e Lisboa, nos meses de julho e agosto, dois voos diários. Espero que aqueles que optaram por “esperar para ver” já tenham percebido o quanto estavam errados. Devíamos e devemos manter com força todas as nossas reivindicações neste domínio.

2. Mas não é só ao nível dos transportes aéreos que o Governo Regional está a prestar um mau serviço ao Faial; o mesmo se passa ao nível da melhoria da nossa rede de estradas. Volto a este assunto pois para além das decisões do Governo Regional serem nefastas para esta ilha, estão envoltas num conjunto de contradições e equívocos que importa denunciar.

O Governo Regional cancelou a construção da 2ª fase da variante à cidade da Horta porque “não existem meios disponíveis para levar a cabo” este investimento e em vez de assumir as responsabilidades por essa decisão enviou as culpas para o Governo da República dizendo que este não havia assegurado verbas suficientes para estradas no Quadro Comunitário 2014-2020.

Mas como mais depressa se “apanha um mentiroso do que um coxo”, logo o Governo Regional foi apanhado nas suas contradições e mentiras. Agora queixa-se o Governo da falta de fundos comunitários mas, em 2013, Vasco Cordeiro declarava que “é com muita satisfação que o Governo dos Açores pode anunciar a todos os Açorianos que conseguiu garantir, para o período 2014-2020, não só a manutenção dos mesmos níveis de financiamento que tinha no anterior Quadro Comunitário de Apoio, como conseguiu, inclusive, aumentar esse montante face ao anterior período de programação”.

E mais recentemente na inauguração de uma estrada em São Miguel anunciou um “plafond” extraordinário de 16 milhões de euros de fundos comunitários para investimentos em estradas, sem justificar porque é que, então, uma pequena via como a Variante à Horta fica de fora, apesar de tantos milhões disponíveis.

3. Mas há mais! O Governo Regional ao justificar o cancelamento da construção da 2ª fase da Variante informou que tinha “dado prioridade à entrada principal da cidade da Horta (Avenida Príncipe Alberto de Mónaco)”. Porém, na resposta (13 de agosto) a um requerimento do Grupo Parlamentar do PSD sobre intervenções na rede viária regional, o Governo explica o investimento que vai ser feito naquela via: “a empreitada consiste na reabilitação do pavimento existente e melhoria do sistema de drenagem, numa extensão de 4,1kms, com reforço da sinalização da/na via, incluindo trabalhos de consolidação de muros e correção de passeios, bem como a respetiva integração paisagística”. Portanto, ao nível de pavimento a Avenida Príncipe Alberto de Mónaco vai ser remendada.

Antes de ter esta informação questionei o presidente da Câmara Municipal da Horta sobre se a intervenção naquela via incluía o saneamento básico. Ou seja: já que o Governo ia intervir devia a Autarquia, aparentemente interessada na implementação do saneamento básico na cidade, aproveitar para colocar os equipamentos necessários para a recolha das águas residuais. A resposta foi de que não incluía o saneamento básico e que a Câmara não conhecia o projeto dessa intervenção governamental.

É assim que se desenvolve o Faial?!

4. Se nestas situações comprovamos quem é que está a prestar um mau serviço ao Faial, outras há em que sentimos que estamos mesmo a andar para trás. Foi com essa sensação que fiquei há dias ao passar em algumas estradas interiores do Faial. Na minha infância e juventude atravessei, muitas vezes a pé na ajuda familiar às tarefas agrícolas, a estrada que liga o Largo Jaime de Melo à Ribeira do Cabo e a que sobe junto à Lagoa Artificial, eram estradas com piso em asfalto e partes em calçada. Hoje, passados cerca de 20 anos, estão em terra batida.

Literalmente andámos para trás!