Já nem sequer ouvem – Opinião de António Marinho
Publicado em 15 de Julho, 2015

“A gente assim não vai lá”. Foi desta forma elucidativa que o presidente da Câmara do Comércio de Angra do Heroísmo sintetizou a sua preocupação sobre o estado em que se encontra a Região.

Pouco tempo antes, tinha sido subscrito pela Câmara do Comércio e Indústria dos Açores, pela Associação Agrícola de São Miguel e pela UGT/Açores um manifesto onde é apontado um inequívoco sentido: “Os Açores necessitam de um novo rumo”.

Mensagens mais claras não existem. Quem sente de perto os problemas daqueles que representa sabe, melhor do que ninguém, que o modelo económico e social adotado desde 1996 está a colocar os Açores num caminho que afeta seriamente a vida dos Açorianos. Alguns efeitos podem mesmo ser irreversíveis.

Mas há quem não tenha gostado. Obviamente, do lado de quem governa os Açores há dezanove anos. Para esses, o incómodo foi notório. De imediato, partiram para a tentativa de desvalorização dos alertas feitos por quem manifestou preocupação e que não deixou, em simultâneo, de apresentar ideias para a mudança de rumo defendida.

A verdade é que os que manifestaram a sua apreensão são os que têm na sua mão a criação de riqueza e emprego nos Açores. São parceiros sociais. Têm um papel determinante numa sociedade que tem na concertação social um espaço de diálogo fundamental, onde se promove a participação dos agentes económicos e sociais nas tomadas de decisão de âmbito socioeconómico.

E há, neste caso, um facto de enorme relevo. Notório e de importância acrescida. Está-se perante a conjugação de um vasto e diversificado leque de opiniões entre parceiros sociais quanto à situação difícil que os Açores vivem.

É largo o consenso na sociedade açoriana de que com este modelo de governação não vamos lá.

Com as mesmas políticas e as mesmas estratégias não se está a proporcionar uma vida melhor aos Açorianos. Muito pelo contrário.

Com as políticas socialistas, os Açorianos já só têm uma garantia. A de que continuarão a ocupar os piores lugares das estatísticas da educação e do desenvolvimento social.

Os Açores continuarão, como ainda recentemente se constatou, a ser a pior Região do país ao nível da coesão. E esse é um dado que devia fazer corar de vergonha quem apenas tem apresentado uma via açoriana de empobrecimento.

Quando parceiros sociais tão distintos se juntam para assinar um manifesto onde aflitivamente pedem um novo rumo para os Açores, está tudo dito quanto à capacidade deste governo regional e quanto à competência como tem gerido a Região.

Os Açores estão na cauda do país. Pobres e atrasados, com a distribuição de rendimentos a assumir-se cada vez mais desigual.

É isso que explica o incómodo dos socialistas com esta iniciativa. Um incómodo que, em simultâneo, têm feito acompanhar por um profundo desrespeito pelo papel importante que os parceiros sociais desempenham na sociedade.

O razoável, ou inclusivamente obrigatório, era que estas chamadas de atenção fossem ouvidas com atenção. E que, a partir daí, houvesse disponibilidade para a procura de soluções consensuais.

Infelizmente, este governo está em completa letargia. E já só se ouve apenas a si próprio.