A ilha do Pico e o Turismo – Opinião de Cláudio Lopes
Publicado em 06 de Julho, 2015

Durante muito tempo acreditei que a base da economia açoriana estaria na agricultura e nas pescas. Na verdade, de algum modo, é o que tem acontecido na generalidade das nossas ilhas.

Na área dos laticínios, os Açores representam 30% da produção nacional. Produzimos carne de boa qualidade e capturamos bom peixe.

Desde há algum tempo começamos a promover mais a diversificação agrícola. Salvo outras honrosas exceções, gostaria de destacar a recuperação da produção vitivinícola que se tem vindo a operar com grande sucesso na ilha do Pico.

Apesar de tudo, temos muitos jovens ligados à agricultura e às pescas.

Há, contudo, no domínio do setor primário regional um complexo de constrangimentos e de dificuldades que retiram rendibilidade e rentabilidade ao sector, nomeadamente aos produtores (agricultores e pescadores), o elo mais fraco dessas cadeias.

Na fileira do leite, a extinção das quotas leiteiras vai causar um grande revés. Na fileira da carne, a concorrência por vezes desleal da entrada de carne de países terceiros baixa os nossos preços a níveis desastrosos. Na pesca as opções erradas ou a falta de boas opções no setor conduziram a um esforço de pesca que “rebentou” com os nossos “stocks piscícolas”, nomeadamente nas espécies de maior valor comercial.

Tudo isto, associado a más políticas governativas que ora induzindo determinados sectores a investimentos vultuosos, sem ter em conta o custo/benefício, ora ficando-se pela construção de estruturas e esquecendo as políticas que poderiam dar sustentabilidade às estruturas criadas, teve como consequência o afundamento da economia regional. Isso revelou-se mais grave nas ilhas demograficamente mais pequenas.

A ilha do Pico foi também uma das vítimas. Mas, os “Homens do Pico” são de rija têmpera. Antevendo as dificuldades que se avizinhavam, há algum tempo perceberam que a Natureza da ilha podia e devia constituir um fator de progresso e de desenvolvimento. Daí a aposta no Turismo. Mas uma aposta no rumo certo. No turismo em espaço rural. Primeiro no alojamento, que continua a crescer e que já dispõe de uma oferta muita significativa. Agora mais na animação. Aqui muito já tem sido feito e está consolidado (o bom exemplo do whale watching), mas aparecem novas atividades e outras podem vir a surgir no curto e médio prazo.

A Montanha é o ex-líbris da ilha. Mas a paisagem da cultura da vinha, (património da UNESCO), os três museus do Pico (associados á baleação e ao vinho), a gruta das Torres, a emergente atividade do mergulho e, espero bem, o próximo projeto da “Casa dos Vulcões”, são projetos estruturantes de uma oferta que, uma vez bem organizada e divulgada, fará da nossa ilha, uma ilha de Turismo de qualidade e de excelência.

Porém, tudo tem de ser feito com inteligência e prudência. Vontade há, das nossas gentes (em especial dos nossos jovens) e de muitos que vindo de fora aqui pretendem investir e por aqui se vão fixando.

O Governo não tem de fazer muito, ou melhor, não deve fazer nada em alguns casos. Porque às vezes onde se mete só estraga e complica. Apenas deve proporcionar as condições para que as coisas possam acontecer.

Neste momento o que o Pico e muitas ilhas da nossa Região necessitam que o Governo faça é tratar convenientemente as acessibilidades. Nos transportes aéreos e marítimos está a chave do sucesso de algumas das nossas ilhas.

No Pico isso é incontornável. Temos de ter ligações aéreas com maior frequência, seja do exterior da Região seja internamente. Depois da chegada das “Low Cost” e da possibilidade que isso criou em termos tarifas para o Continente português abaixo de metade do preço que tínhamos antes, resta agora ao Governo Regional e à SATA fazer o mesmo nas ligações inter-ilhas. A SATA deve ter uma frota adequada para dar resposta às solicitações que vão surgindo. O custo das tarifas aéreas inter-ilhas deve baixar na mesma proporção do que aconteceu no custo das tarifas entre a Região e o Continente. Temos de ter boas ligações marítimas de passageiros e de mercadorias, feitas com regularidade, frequência e segurança. No fundo, temos de ter transportes fiáveis. Essa será a maior e melhor ajuda que o Governo poderá dar aos nossos audaciosos empresários locais.

Isso promoverá a nossa economia, gerará emprego sustentável e proporcionará mais crescimento e maior coesão territorial na Região.

Os picoenses vão, sacrificada e ousadamente fazendo a sua parte. O Governo tem falhado quase sempre. Por inabilidade e por incompetência. É preciso, urgentemente, mudar de políticas e, sem dúvida alguma, de políticos. Já chega de tanta oportunidade perdida!