As sortes de Carlos – Opinião de João Bruto da Costa
Publicado em 24 de Junho, 2015

O então jovem Carlos termina os estudos de Liceu, ainda no calor da revolução de abril, e ruma a Lisboa para cursar. Mas a ambição da política rouba-lhe demasiado tempo aos estudos e a convivência diária na sede do partido fá-lo funcionário do PS.

Subindo nas hierarquias, casa e tem um filho. Regressa aos Açores para deputado regional na oposição e, sem muitas cerimónias, inicia o caminho de ascensão interna para só parar depois de se ver livre do então líder do partido nos Açores.

Afinal, todas aquelas vivências da Lisboa entre os camaradas do socialismo, sempre serviriam nos Açores por entre muitas atribulações regionais de um combate interno prolongado, mas recheado de sucesso.

Já ao tempo que Carlos sabia como lidar com os insucessos caseiros, e as sucessivas vitórias do PSD, nas primeiras décadas da autonomia, abriram-lhe caminho para liderar o PS mesmo antes da provável alteração de governo nos Açores.

Quis o povo e a ocasião fazer de Carlos Presidente do Governo e com o passar dos anos, beneficiando de uma avalanche de fundos comunitários, foi-se ficando em total domínio do partido e do poder regional.

Por certo enfadada da vida de primeira dama sem estatuto próprio, Luísa, a esposa, é nomeada para um lugar criado para si de zeladora dos palácios, onde o uso dado pelo marido mereceria cuidados especiais. Cargo que mantém por largos anos e de onde transita para uma nova missão; a de cuidar das memórias de Carlos depois de ele rumar novamente a Lisboa, pois dos palácios de lá não se procura cuidador.

Em pleno exercício da governação nos Açores cresceu o filho Francisquinho, e a sua, por vezes demasiado ostensiva, necessidade de se parecer com o pai Carlos leva Francisco a algum ridículo, mas na verdade ele conseguiu todos os feitos de Carlos no seu início de caminhada política.

Terminados os estudos secundários, também Francisco ruma a Lisboa, onde a JS o absorve em aventuras partidárias e afasta dos estudos, para também ele regressar para deputado nos Açores, já vice na bancada parlamentar e a presidir à Comissão Parlamentar de Economia.

Também o filho por cá se desposa, e também ele é já pai de um rapaz. Neste enredo há também a nora de Carlos que, certamente por coincidência ou destino, é destacada de uma Câmara Socialista derrotada para chefe de gabinete de uma Secretária Regional.

Já com a mulher a cuidar da história ou das histórias do marido nos cargos públicos que ocupou nos Açores, com o filho de pedra e cal na máquina partidária socialista e com a mulher deste colocada num cargo de nomeação política, Carlos está de novo em Lisboa, com o seu semblante carregado a ouvir por cima do ombro do líder do PS, líder esse que Carlos ajudou na ciência de aproveitar os menos bons resultados do camarada que não lhe interessava, ou não soubesse Carlos como tinha sido com ele nos Açores, vinte anos antes.

O percurso de Carlos permitiu que em sua casa todos façam a vida com ligação à política e hoje Carlos vem a ser um comentador televisivo a receber seis mil euros num programa visto por sete mil pessoas num canal do Estado. A esposa e nora com cerca de três mil euros mensais e o rapaz com perto de 4 mil, o que dá mais ou menos dezasseis mil euros por mês.

Carlos quer agora voltar em grande para mais um cargo com que vai sonhando em resultado daquilo que, juntamente com os lá de casa mais o amigo de Lisboa, pensava serem favas contadas.

Até aqui o povo deu a Carlos o que ele foi desejando, mas a sorte talvez esteja a mudar.