Às ordens do “professor” – Opinião de António Marinho
Publicado em 03 de Junho, 2015

Vasco Cordeiro, no dia dos Açores, num discurso em que se impunha que ficasse associada uma adequada carga institucional, não se portou como Presidente do Governo. Assumiu as vestes partidárias e entrou em força pela via do eleitoralismo primário.

É certo que estamos a cerca de quatro meses das eleições para a Assembleia da República. Mas terá sido uma opção razoável? E óbvia?

Nem uma coisa, nem outra. Ou melhor, não sendo razoável, talvez tivesse algo para ser óbvia.

Não foi razoável, porque é perfeitamente descabido adotar uma postura comicieira num ato revestido da maior solenidade para os Açorianos.

Não é admissível que o dia maior da Região, o dia da “festa açoriana”, seja palco para alguém que se acha líder do partido a que pertence aproveitar a sua condição institucional para “catar” votos. Porque esse é o dia destinado à exaltação dos valores da Autonomia, em que se afastam os fantasmas do passado que por vezes indesejavelmente ainda regressam e em que, consequentemente, deve ser promovida a unidade dos Açores e dos Açorianos.

Decididamente, não foi razoável. Mas há “escolas” que têm destas coisas. E a verdade é que quem o antecedeu nos cargos, no governo e no partido, e que foi o seu “professor”, era useiro e vezeiro em aproveitar momentos institucionais para captar a atenção das pessoas para a sua mensagem partidária. E tantas vezes o fez, também, no dia da Região. Da mesma forma. Sem pruridos. Com arrogância.

Não sendo aceitável tal postura, é possível que para Vasco tenha sido óbvia. Estará talvez a sentir a necessidade de dar a volta a algo que não lhe está a correr como desejava. Daí fazer sentido para si esta entrada a pés juntos pelo caminho eleiçoeiro.

Talvez as “notícias” que tem recebido nos tempos mais recentes não estejam a ser auspiciosas em relação ao resultado eleitoral que pode receber daqui a quatro meses. Daí que, na sua cabeça, nada como aproveitar-se da sua condição de presidente do Governo Regional, num momento em que era grande a quantidade de potenciais eleitores que o escutavam, porque festejavam, com o respeito devido, o dia maior da Autonomia.

O “professor” é que lhe “ensinou” que em política não tem que se olhar a meios. Nem tem de haver preocupação no uso da condição institucional para fins eminentemente partidários.

“Nós, os socialistas, não temos estes cuidados. Não queremos cá saber de salamaleques”. Terá sido uma frase deste tipo que o “professor” utilizou. E terá continuado: “Daqui a quatro meses é a minha cabeça que está em jogo”. E pode ter rematado, para os seus botões: “Para alguma coisa serve eu ainda mandar no partido.”

Pois é. Vasco cumpre sempre o que quem manda lhe diz para fazer. E a verdade é que, para satisfazer a sua própria ambição, não tem grandes hipóteses de sair fora do tom. Foi assim que cresceu na política. Sempre obedeceu, e obedece, às ordens do “professor”. Aliás, como todos aqueles que hoje em dia gravitam à volta da órbita socialista açoriana.

O “professor” viu os gráficos. Não gostou da barra rosa com a sua fotografia. E deu ordens.

Vasco, diligentemente, cumpriu. E manchou o Dia da Autonomia.