Coesão? Ainda a ver navios – Opinião de João Bruto da Costa
Publicado em 27 de Maio, 2015

No final da passada semana a Transmaçor anunciou o reforço das viagens marítimas dos navios “Gilberto Mariano” e “Mestre Simão” nas ilhas do triângulo, consagrando, igualmente, duas ligações semanais com a ilha Terceira. De fora fica, mais uma vez, a ilha Graciosa.

É de louvar que se reforce o número de viagens na época estival. Afinal, assim o obriga a necessidade de acessibilidades nas ilhas do Grupo Central, aumentando as possibilidades de maior movimento de pessoas e reforçando a coesão. Mas a exclusão sistemática da ilha Graciosa desta operação é um factor de discriminação inaceitável que empurra para fora de qualquer plano de coesão social, económica e territorial a mais pequena ilha do Grupo Central.

É escusado voltar a referir todas as potencialidades da ilha Graciosa que se desvalorizam com este tipo de políticas de transportes. E mais escusado será a necessidade de elencar todas as contrariedades da ilha continuar a ser excluída numa operação que, em tempos, até tinha como obrigação de serviço público as viagens entre o triângulo e a ilha Graciosa.

Mas não posso deixar de referir aquilo que é mais uma “traição” aos legítimos anseios de uma comunidade que vê goradas quaisquer expectativas de poder sentir-se integrada num conceito de autonomia solidária, em que se complementam os esforços de todos para que ninguém fique para trás.

E a verdade é que a Graciosa está a ficar cada vez mais para trás, pelo repetido esquecimento daquilo que são as suas necessidades.

Quando, em 2012, as propostas apresentadas pelos diferentes partidos concorrentes às eleições regionais incluíam uma concretização de um verdadeiro mercado interno e quando estamos a mais de meio da legislatura os graciosenses perguntam-se: para quando? Para quando é que terão oportunidade de fazer escoar os seus produtos? Para quando poderão ambicionar o famoso aumento de escala para a sua economia? Para quando serão cumpridas as promessas que, legislatura após legislatura, lhe são feitas e que teimam em não ser concretizadas?

A resposta é mais simples do que à primeira vista parece e os Graciosenses já a conhecem: só com a mudança de políticas se poderá vir a assistir a uma autêntica alteração do paradigma do isolamento a que estão a condenar a ilha, isolada pela falta de mobilidade, pela falta de acessibilidades, pela falta de compreensão para o perigo do desequilíbrio social e económico que tem origem na desertificação e na descrença crescente entre as suas gentes.

No ano passado, perante as notícias de que os navios da Transmaçor não iriam escalar a Graciosa, ouvimos Presidente da Câmara e destacados responsáveis políticos ligados ao Governo afirmar que isso até era melhor porque a ilha seria servida pelos navios da Atlanticoline (!!!).

Foram afirmações que chocaram pela ofensa que constituíram à inteligência dos graciosenses. Não sei que “conversas” hoje terão esses responsáveis para dizer aos graciosenses sobre mais um ano sem bons transportes para a Graciosa, pois nem os horários da Atlanticoline servem a ilha em condições, nem os navios da Transmaçor irão escalar a Graciosa. Nem tão pouco já interessa muito aos graciosenses as justificações de quem apenas se preocupa em defender o indefensável, ignorando quem é o verdadeiro credor da sua lealdade e que são os eleitores.

O que os graciosenses queriam mesmo é não ser sempre apenas as vítimas dos ciclos eleitorais, em que de quatro em quatro anos voltam a assistir a promessas ou medidas que só surgem para conquistar votos.